PUBLICIDADE
Topo

Coluna

Campo Livre


Fogaça: Como funciona a cultura do mercado da bola no Brasil

Abel Braga foi apresentado no Vasco no mercado da bola - Rafael Ribeiro/Vasco
Abel Braga foi apresentado no Vasco no mercado da bola Imagem: Rafael Ribeiro/Vasco

09/01/2020 13h29

Começo de temporada, e o futebol brasileiro ferve em torno das negociações para formar seus grupos de atletas. Com a janela de janeiro se abrindo, transações internacionais começam a ser especuladas na imprensa. Mas como realmente funcionam os negócios no futebol brasileiro?

Existe um pensamento inocente de grande parte dos torcedores que acredita que "pelo peso da camisa" qualquer jogador do mundo faria qualquer coisa para vestir o "manto sagrado". Claro, esse é o pensamento do torcedor que ama de graça seu clube. Mas o futebol é profissional e tem seu preço.

Se por um lado dirigentes são cada vez mais obrigados a terem os pés no chão e só fazerem negócios que suas finanças permitam, sempre há aquele cartola perdulário que gasta além da conta ou promete um valor razoável e possível, mas termina dando calote.

Aliás, nada mais brasileiro do que o CALOTE dos clubes de futebol. Quando um clube contrata um jogador, geralmente o destino desse valor tem uma divisão: o próprio atleta, seu representante, os investidores, os intermediários, o clube onde ele jogava antes, os investidores do ex-clube...a lista pode ser infinita.

Então, dentro dessa lista de PLAYERS em um negócio do futebol, não pagar no prazo combinado ou até mesmo não pagar o total acordado, é praxe. Tanto que há milhares de processos trabalhistas ou financeiros contra clubes e empresários. Por isso, não se engane ao ver o brilho das cifras de um negócio no Brasil. Não significa que o vendedor vá ver aquele dinheiro na totalidade um dia.

Por exemplo, um time brasileiro grande AINDA não pagou a um clube europeu o valor acordado pelo empréstimo de um atacante que chegou ano passado, jogou e JÁ FOI EMBORA. Ou seja, na real o clube teve o atleta apenas pelos salários, pois o valor combinado com o "dono do passe" e os empresários, AINDA não foi ressarcido.

Outro erro comum do torcedor é especular e imaginar todo tipo de jogador em seu clube, sem saber da relação do EMPRESÁRIO daquele atleta com o dirigente da sua instituição. Como tudo no Brasil, a relação pessoal e de confiança é MUITO importante.

Não adianta um jogador estar disponível, ter valor acessível e qualidade que cairia como uma luva no modelo de jogo do treinador. Se o empresário dele não "se leva bem" com os dirigentes do clube, o negócio não vai acontecer.

Essa supervalorização das relações pessoais - muitas vezes levando a negócios escusos - impede que os Departamentos de Inteligência dos clubes consigam realizar seus trabalhos com excelência. Pois não adianta NADA o analista de desempenho e o Scout encontrarem aquela jóia para ser lapidada em um clube pequeno ou no exterior, se o dirigente do clube não tem uma relação com o empresário do atleta.

Por último, temos que falar do papel da imprensa nessa cultura. Nosso trabalho é ir atrás da informação e contar ao público aquilo que as partes envolvidas não querem contar. Empresários e dirigentes escondem da imprensa informações para, segundo eles, "facilitar os processos". E é verdade que um vazamento de negócio pode travar um processo.

E justamente por isso, muitas vezes dirigentes, empresários e intermediários soltam notícias falsas aos jornalistas, ou para valorizar os seus atletas, ou para emperrar uma negociação, ou para pressionar um clube. Não há inocentes no processo, e todos fazem parte dos erros e acertos.

Sendo assim, é uma época muito difícil de saber o que é verdade e o que é apenas especulação. Muitos interesses correm soltos no mercado, e a última coisa que pesa é o modelo de jogo que o treinador quer para seu time. É necessário muita cautela e trabalho jornalístico sério para não cair nos jogos do mercado.

Por isso, também vemos treinadores sendo demitidos daqui dois, três meses, pois o que pesou na hora de contratar foi tudo MENOS as necessidades esportivas do técnico. São poucos os clubes que pensam de forma correta no Brasil. Eles são a esperança de mudar uma cultura profundamente enraizada. Veremos!

Campo Livre