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Fogaça: A Copa de 1970 já acabou (ou por que defendo Tite na seleção)

Tite orienta a seleção brasileira no amistoso Brasil x Nigéria - Roslan Rahman/AFP
Tite orienta a seleção brasileira no amistoso Brasil x Nigéria Imagem: Roslan Rahman/AFP
Gustavo Fogaça

Gustavo Fogaça

Conhecido como Guffo, é comentarista da DAZN Brasil, analista de desempenho e cineasta

21/11/2019 12h01

A recente vitória do Brasil sobre a Coreia do Sul trouxe um pouco de sossego à comissão técnica e aos jogadores da seleção, e todos poderão passar as festas felizes neste final de ano com suas famílias. Mas o fantasma da pressão está apenas à espreita da próxima partida.

Quando o mundo descobriu o Brasil em 1958, começou ali no chapéu de Pelé no zagueiro sueco ou na entortada de Mané no lateral russo, a construção da nossa identidade por meio de um esporte no qual seríamos melhores do que todos. Isso porque nós brasileiros - torcedores e imprensa - temos na seleção nossa projeção maior de orgulho e representatividade.

Mas a "era da inocência" no futebol teve seu último capítulo na sereia dourada do time de 1970. A loucura inovadora da Holanda em 74 mostrou que os espaços no campo valiam muito e que, sim, iríamos levar 24 anos para sermos os melhores novamente.

E é assim que, às portas da terceira década do século 21, temos uma insatisfação geral com a seleção brasileira. Sim, grande parte se deve a não ter vencido a Copa da Rússia. Havia uma expectativa enorme com um time que se mostrava entrosado, com recursos técnicos e um modelo de jogo assimilado.

Depois do Mundial, o Brasil fez 16 partidas até a final da Copa América onde se sagrou campeão sobre o Peru. Esse foi o MELHOR período do time de Tite nos quesitos ofensivos: média de 2,4 gols marcados com 2,4 gols esperados (xG). Ou seja, o time concretizava exatamente o que construía.

Cada chance criada tinha, em média, 29% de probabilidade de gol (nas Eliminatórias e na Copa, era de 26%). Cada finalização, 15% (sendo de 13% anteriormente).

Os números apontam que o pesadelo começou após o título continental: em 6 partidas, a média de gols marcados caiu para 1,16 com 1,6 gol esperado (xG). Cada chance criada teve 25% de probabilidade de gol. E as finalizações voltaram a ter 13% na média, como antes da Copa de 2018.

Com a tranquilidade que o título trouxe (garantiu o emprego de Tite), chegou a hora de se reinventar. E isso não acontece do dia pra noite! O bom momento da seleção nos jogos pós-Mundial deveria dar os créditos suficientes para que Tite fizesse testes nas convocações, nas dinâmicas com e sem a bola, e no posicionamento dos atletas em campo.

Além disso, quantas vezes ele ficou limitado com esses amistosos esdrúxulos em convocar os melhores jogadores dos times brasileiros? Praticamente em todas as convocações. Renovação REAL é complicado de fazer com nosso calendário.

Como muitos de vocês sabem, morei metade da minha vida no exterior, em 10 países diferentes. Em todos eles, tive a felicidade de bater uma bolinha com amigos locais, vivenciar o futebol como cada cultura vive. E posso afirmar: cada país tem algo que caracteriza ao seu povo no esporte e que fascina aos torcedores.

Se na Argentina é a garra ("poner huevos"), na Itália é a velocidade. Se na Espanha é o passe preciso, na Inglaterra é a intensidade da disputa. No Brasil, a gente sabe, o povo gosta de um "jogo bonito": dribles, fantasias, malemolência e uma certa irresponsabilidade com o jogo em nome do espetáculo.

Só que no futebol profissional globalizado do século 21, existe uma supressão dessas características culturais no jogo. Os atletas, a maioria trabalhando e vivendo em lugares diferentes dos seus de origem, correspondem mais às ideias do seu treinador ou ao "mindset" dos seus clubes do que propriamente à cultura de uma nação.

Ou dá para afirmar que o City de Guardiola joga o típico futebol inglês? Ou o PSG de Tuchel tem o clássico jeito francês de jogar? Até mesmo o Flamengo de Jesus, que muita gente acredita ser o "típico futebol brasileiro", não o é.

E está tudo bem com isso, gente! A Copa de 1970 acabou. O Flamengo de 2019 não é o de 1981. O mundo mudou. As fronteiras caíram, surgiram outras diferentes, e tudo está ao alcance de um clique. Não esperem que a seleção brasileira jogue o futebol fluído, moleque e "clássico" como o que a gente sonha.

E isso não é culpa de Tite. É simplesmente a realidade contemporânea da época em que vivemos. Curta a sua pelada com os amigos, pratique o típico futebol brasileiro com eles. E desfrute no futebol profissional o caldeirão de ideias, variações e vertentes, todas ricas e encantadoras que ele oferece. Independente da bandeira e da cultura onde o jogo aconteça.

Fonte: Estatísticas da plataforma InStat.

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