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Zaidan: No Catar, seleção não poderá depender apenas de sua tradição

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27/10/2019 04h00

Prossegue o festival de amistosos. Repito pela enésima vez: há excesso de datas reservadas pela Fifa para esses jogos entre seleções. Argentina e Coreia do Sul serão os oponentes do Brasil em novembro. Tite, muito criticado quando convocou jogadores de Flamengo e Grêmio para os compromissos de outubro, decidiu desta vez não desfalcar clubes brasileiros. Fez bem.

Afinal, o campeonato daqui, ignorando o calendário da Fifa, continua normalmente; assim, convocar jogadores de times nacionais significa, ao fim, uma indevida interferência técnica na competição. Mas haverá desfalques provocados por seleções de outros países e pelo time sub-23 do Brasil.

Para os organizadores desses jogos que o Brasil fará no mês que vem, a péssima notícia é a ausência de Neymar, que se machucou no empate com a Nigéria - contusão que provocou reclamações do Paris Saint Germain. O lateral Emerson, do Betis, o meio-campista Douglas, que está no Aston Villa, o atacante Rodrygo, do Real Madrid, e o goleiro Daniel Fuzato, da Roma, são as novidades.

O problema é que Tite tem dificuldade para mudar o roteiro, testar mudanças e, mesmo em amistosos, deixar que estreantes fiquem muitos minutos em campo. Jorge e Samir, por exemplo, foram chamados para aquelas partidas que a seleção brasileira fez em setembro e não jogaram nem sequer um segundo. Pior: foram ignorados na convocação seguinte. Também Rodrigo Caio viajou apenas para ver, desde o banco de reservas, o Brasil enfrentar Senegal e Nigéria. Mas o zagueiro do Flamengo terá, provavelmente, outras oportunidades, até porque o treinador ainda busca alguém para o lugar de Miranda.

Nas três convocações feitas depois da Copa América, houve novidades na zaga: Samir, Rodrigo Caio e, agora, Felipe, que foi titular de Tite no Corinthians - juntos, conquistaram o título brasileiro de 2015. Depois, o defensor foi para o Porto, jogou muito bem por lá e, nesta temporada, desembarcou na Espanha para substituir Godin no Atlético de Madrid.

Sem poder contar com Daniel Alves, o treinador da seleção chamou Emerson, que passou por Ponte Preta e Atlético Mineiro. O lateral do Betis tem vinte anos e poderá estar na lista dos que disputarão os jogos de Tóquio, em 2020.

No meio-campo, Douglas ficou com a vaga que na última rodada de amistosos foi de Matheus Henrique, do Grêmio. O convocado mostra bom futebol desde o primeiro momento como profissional do Vasco. O Manchester City o levou, mas houve dificuldades burocráticas para sua regularização trabalhista no Reino Unido. Ele, então, foi para o Girona, filial espanhola do City. Pep Guardiola lamentou não poder utilizá-lo. Quando Douglas voltou, não havia espaço no elenco, e ele acertou com o Aston Villa. Com 21 anos, também tem boas chances de estar no time que irá ao Japão.

A situação de Rodrygo é diferente, começando pelo fato de que ele joga pelo Real Madrid, ou seja, já convive com um nível alto de exigência. O atacante fará 19 anos em janeiro; suas oscilações são, pois, naturais, mas é um jogador talentoso - o que já estava claro em seus tempos de Santos - e tem sido escalado com frequência por Zidane, inclusive na Liga dos Campeões. Ele e Vinícius Junior precisam melhorar em alguns aspectos técnicos, o que pode ser resolvido com muito treino e boas orientações.

O Brasil não venceu jogo algum depois da Copa América: três empates, uma derrota e nenhuma boa atuação. O título continental trouxe algumas semanas de sossego para a comissão técnica da seleção. Mas, no futebol, essas coisas não duram muito tempo; antes, há uma necessidade permanente de vitórias e conquistas. É por isso que, dia após dia, aparece um treinador falando a respeito de desgaste e cansaço. Não é fácil.

Tite sabe como tudo isso funciona, como sabia que a tranquilidade que experimentou em julho não duraria muito mais do que algumas semanas. Quando ele treinava o Corinthians, gostava de dizer que clássico é um campeonato à parte, pois, mesmo não distribuindo mais pontos que os outros jogos, tem a força de consolidar ou de desestabilizar um trabalho; os efeitos de seu resultado podem durar semanas ou meses.

Hoje, na seleção, é provável que Tite pense o mesmo de um confronto com a Argentina, mesmo se tratando de um mero amistoso. No início de 2020, será a hora de a comissão técnica pensar no classificatório para a Copa do Mundo; terá passado o tempo de testes e experiências. A disputa das Eliminatórias não será um passeio, mas o Brasil, mesmo com o futebol medíocre que anda mostrando, tem time para se classificar sem dramas excessivos.

A disputa na América do Sul moldará o Brasil para o Mundial no Catar. Não basta fazer o suficiente para se classificar; é preciso melhorar muito, tática e tecnicamente, para chegar a 2022 com chances de ganhar o título. Chances que não podem depender somente da extraordinária tradição da seleção.

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