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Craques para além de seus tempos. Eis a grandeza do futebol

Garrincha e Pelé, na seleção brasileira - Divulgação/CBF
Garrincha e Pelé, na seleção brasileira Imagem: Divulgação/CBF
Claudio Zaidan

Claudio Zaidan é radialista há 44 anos. Em São Paulo, trabalhou nas rádios Jovem Pan e Trianon. Entrou na Rádio Bandeirantes em 1994, onde ficou por cinco anos. Voltou para Bandeirantes em 2001, onde atualmente é comentarista.

09/06/2019 04h00

O sujeito, determinado a desafiar o que lhe parece um dogma, solta a pergunta: "O Pelé, hoje, faria o que fez?". Costumo responder que ele marcaria 2 mil gols. Um se expande nas especulações: "E o Garrincha, no futebol atual, conseguiria jogar?". Digo, então, que o fenomenal Mané, se jogasse nestes dias, seguiria driblando todos que visse pela frente e fazendo cruzamentos perfeitos para seu centroavante.

Outro, depois de ver vídeos da Copa de 70, sentencia: "O Gerson fazia aqueles lançamentos porque tinha muito espaço, não era marcado.". Mas como, mais de trinta anos depois das obras-primas do Gerson no México, o Gerrard fazia lançamentos igualmente primorosos? Essas questões são provocadas pelo revisionismo, a tentativa de medir e situar o passado com o olhar forjado pelo presente.

Pelé, Garrincha, Gerson, Domingos, Leônidas, Zizinho, Djalma Santos, Nilton Santos, Zito, Coutinho, Carlos Alberto, Clodoaldo, Tostão, Bauer, Mauro, Ademir da Guia, Jair, Jairzinho, Dino, Julinho, Evaristo, Heleno, Didi, Rivellino, Pepe, Edu, Dirceu Lopes, Falcão, Reinaldo, Zico e muitos outros jogadores formidáveis do passado, todos eles fariam, hoje, tanto quanto fizeram em seus tempos.

Dadas as condições que teriam à disposição, talvez fizessem ainda mais. Ao revisionismo, com sua desconfiança de relatos e feitos históricos, se contrapõe o saudosismo, com seu desprezo pelo hoje. O passado é, muitas vezes, um refúgio, um esconderijo, um lugar seguro que idealizamos, feito um antídoto aos problemas do presente. Também é assim no futebol. Me lembro que quando Romário virou titular no Vasco, estava claro desde o início que ele seria um jogador extraordinário; assim como os gols de Ronaldo pela seleção juvenil, antes mesmo de ele ir do São Cristóvão para o Cruzeiro, anunciavam um atacante espetacular; e também os primeiros jogos de Ronaldinho Gaúcho já revelavam um craque de qualidades incomuns.

Eis, porém, que não faltaram os que dissessem "É jogador bom pro futebol de hoje; não tem a bola dos caras do passado. Aqueles, sim, eram craques!". Comentários semelhantes foram feitos nos anos recentes em relação a Messi e Cristiano Ronaldo, como se jogar futebol nesta década fosse uma moleza, com zagueiros ruins e marcações fracas. A realidade é oposta a essa premissa fantasiosa. Hoje, de fato, a marcação é, quase sempre, implacável, o que valoriza ainda mais o que Messi e Cristiano fazem em campo. Enfim, o revisionismo e o saudosismo estabelecem uma resistência quase conceitual, uma dificuldade em reconhecer o talento extraordinário independentemente da época em que este se manifesta.

Não se pode ignorar as mudanças na preparação física, na medicina esportiva, na tática e no aprimoramento dos treinos para funções específicas (o que é notório no caso dos goleiros); no entanto, tudo isso apenas aumenta o rendimento do talento, ou seja, não o tolhe, não o produz e não o explica. Pelé, Messi, Puskas, Cristiano Ronaldo, Zico, Di Stefano, Pedro Rocha, Yashin, Banks, Maier, Ademir da Guia, Rivellino, Ronaldo, Maradona, Beckenbauer, Romário, Zidane, Garrincha, Cruyff e muitos outros seriam jogadores excepcionais em qualquer tempo. Seus feitos não são obra das circunstâncias.

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