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Brasileiro relata drama na Itália e reforça recomendações de isolamento

Dimitri Sousa - Divulgação
Dimitri Sousa Imagem: Divulgação
Fábio Balassiano

Por aqui você verá a análise crítica sobre tudo o que acontece no basquete mundial (NBB, NBA, seleções, Euroliga e feminino), entrevistas, vídeos, bate-papo e muito mais.

29/03/2020 05h11

* Por Dimitri Sousa, atleta de 25 anos

Fala pessoal, tudo bem? Pra quem não me conhece, me chamo Dimitri Sousa e sou jogador profissional de basquete. Tenho 25 anos, jogo no exterior há 11 anos (Europa primeiro, depois em faculdade nos EUA e depois na Europa novamente), e até começar a pandemia da COVID-19, estava jogando na Itália. Todo mundo está vivendo os efeitos do coronavírus, mas queria contar um pouco pra vocês do que aconteceu comigo em um dos lugares mais afetados por essa pandemia.

É meio difícil falar de um tema tão complexo, especialmente nos dias de hoje, onde infelizmente ainda temos pessoas não dando a devida importância ao que estamos vivendo. Não sou infectologista, longe disso, e por isso não estou aqui para falar como autoridade médica. Não é esta a intenção deste relato. Apenas estou aqui para passar a experiência e a impressão de quem viveu na pele o que essa crise causou (até o momento) no país que amo e que passei 6 anos da minha vida.

Tudo começou em fevereiro desde ano. Estava no Brasil, pois tinha rescindido meu contrato com meu ex-time (JuveCaserta). Durante as negociações com times, comecei a ouvir sobre os casos do ainda desconhecido coronavírus ainda, como todo mundo, sem a real noção sobre a proporção que isso tomaria. Quando assinei com o Monopoli Basket (da cidade Monopoli, na região de Puglia no extremo sul da Itália) fiz questão de perguntar para o maior número de pessoas sobre a gravidade da situação. Para minha "tranquilidade" e principalmente da minha família (tenho esposa e um filho) todos falavam que não era nada mais que uma simples gripe (parece o posicionamento de um certo líder brasileiro, né...).

Voltei pra Itália dia 25 de fevereiro e, como esperado, as coisas estavam funcionando normalmente, como se nada estivesse acontecendo. Com o passar dos dias a situação começou a piorar consideravelmente no norte da Itália, principalmente na Lombardia, a área mais desenvolvida e rica do país. Nesse período muitos times começaram a jogar com portões fechados para evitar aglomerações. Mas enquanto isso muitos políticos, principalmente do atual governo da Itália, lutavam contra as paralisações e falavam que uma "gripezinha" não era motivo para prejudicar a frágil economia italiana.

Com o avanço do COVID-19, a Federação Italiana começou a suspender os jogos. A partir disso começaram a ser tomadas medidas mais duras, como o lockdown (estado de emergência) do norte da Itália. Nesse momento muitas pessoas ainda subestimavam a situação, mas já se notava uma mudança no comportamento. Até na Puglia, onde quase não havia casos, as ruas ficaram desertas, os negócios começaram a fechar e as pessoas evitavam sair de casa. Parecia uma cidade fantasma.

A partir desse momento começou realmente a existir a possibilidade de suspender o campeonato. O meu time, numa atitude de responsabilidade cada dia mais rara no basquete, decidiu pela suspensão temporária das atividades. Liberou todos os atletas pra voltarmos pra casa, o que depois viria a ser definitivo, com a suspensão definitiva do campeonato. Nos dias seguintes a Itália entrou em lockdown total, o país inteiro virou "zona rossa" ou seja, as pessoas não podem sair de casa sem autorização do governo e nem se locomover de cidade a cidade.

Felizmente, graças a responsabilidade e ética com os atletas do meu time, o Monopoli Basket, consegui sair de lá antes de ficar preso e antes desse número assombroso de mortes começar a virar algo diário. Chegando no Brasil, no dia 11 de Março, estranhei a falta de controle do aeroporto com um voo chegando da Itália. É incrível, mas não fizeram NENHUM tipo de controle dos passageiros. Como o número de casos ainda era pequeno, muitas pessoas ignoravam o fato deste vírus existir e estar causando estragos no mundo inteiro. Cheguei, estamos todos bem, agora com a gente recluso como deve ser (estou no interior de São Paulo) e cuidando da saúde, que é o mais importante neste momento.

Por fim, neste momento de tanta discordância no Brasil eu só posso tentar informar e pedir para que as pessoas se conscientizem. Tratar o COVID-19 como uma "gripezinha" é um enorme erro. Basta olhar o que está acontecendo na Itália, Espanha e Estados Unidos. Também é importante lembrar que esses são países desenvolvidos, com capacidade sanitária e financeira muito maior que o Brasil. Mesmo assim estão passando por um inferno. Imagina se chegamos a este ponto no Brasil? Teríamos uma quantidade de mortes assustadora, ou seja, não adianta negar a existência desse vírus.

Infelizmente os efeitos econômicos vão ser sentidos e muito, inclusive por nós atletas, mas na minha opinião é melhor passarmos juntos por um momento de crise financeira do que vermos o extermínio de uma parte da população e o colapso do sistema de saúde de um país. Espero que meu testemunho seja suficiente para dar um ponto de vista de alguém que viveu na pele, e perdendo seu emprego, os efeitos desse vírus no país em que construi grande parte da minha carreira.

Não vamos deixar isso acontecer com o nosso Brasil. Reforço: FIQUE EM CASA!