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Bala na Cesta


Querido Kobe

Harry How/Getty Images/AFP
Imagem: Harry How/Getty Images/AFP
Fábio Balassiano

Por aqui você verá a análise crítica sobre tudo o que acontece no basquete mundial (NBB, NBA, seleções, Euroliga e feminino), entrevistas, vídeos, bate-papo e muito mais.

27/01/2020 00h28

Querido Kobe,

Você foi o meu Ayrton Senna. Tenho 36 anos, não vi quase nada do Ayrton, não entendia muito bem quando ele foi campeão e só entendi bem o legado do que ele fez bem depois de sua morte.

Com você foi diferente. Foi amor ao primeiro arremesso. Errado. Você era um moleque magricelo, cabeludo e que tentava tudo, de todo lado, sem o menor pudor. Eu gostava daquilo. Era maneiro, desafiador e sobretudo louco em uma época onde os donos da situação barbarizavam em cima da garotada. Você era louco, cara. Queria bater de frente com Michael Jordan e eu só ficava pensando: "Meu irmão, o Kobe é maluco!".

Aí veio este domingo. Que dor, cara. Que vazio. Que porrada. Quando soube o que tinha acontecido com você, sua filha e mais sete eu não acreditei. Que efemeridade é essa da vida que leva vocês assim num sopro? Precisava do helicóptero, cara? Precisava voar tão cedo? Precisava sair desse plano tão cedo? Quarenta e um anos, Kobe? É sério?

Você, Kobe, foi o primeiro craque, supercraque, de uma NBA global, internacional, transmitida e retransmitida para o mundo inteiro. Eu vi o final de Michael Jordan. Todos, do Brasil, viam 10, 15, 20 jogos de Michael Jordan por temporada no máximo na década de 90 graças às transmissões da Band. De você eu vi muito. Com a chegada do League Pass eu vi praticamente tudo. Chegava no colégio, na faculdade, no meu intercâmbio na Espanha após ter varado a madrugada vendo o Lakers e procurava alguém para debater o que tinha visto na noite anterior. O assunto invariavelmente era você.

Conhecia seus movimentos, conhecia seus pontos fortes, entendia seus problemas, vibrava com suas correções de rota. Você respeitou o jogo com sua forma compulsiva de querer evoluir e o basquete o retribuiu com cestas, troféus, medalhas e muito mais.. Você queria ser Michael Jordan. Não deu, mas se contentar com pouco nunca foi Kobe Bryant. O final de sua carreira mostra que você muito mais acertou do que errou. Todos o reverenciaram depois que você escreveu a sua famosa carta de despedida. Neste domingo todos choraram.

Enfim, cara. Eu sou o que sou e te agradeço por isso. Sou Lakers por causa do meu tio. Tio que tinha Magic Johnson como ídolo. O começo foi barra pesada. Era a transição pós-Magic e tudo dava errado.

Passei a vibrar pelo Lakers por sua causa e por causa do Shaq. Os momentos difíceis foram rapidamente trocados pelo tricampeonato praticamente na mesma época que a TV a cabo chegava lá em casa. Não foram poucas as noites que levei bronca da minha mãe e do meu pai para te seguir, te acompanhar, sorrir e chorar com você. Levo alguns dos seus ensinamentos no meu dia a dia. Algumas coisas que você pregava sobre desenvolvimento, persistência e liderança eu tento exercitar. Nem sempre dá certo, mas você também errava porque preferia tentar sozinho a deixar a vida nas mãos dos outros.

Você foi o começo da era da internacionalização dos mitos e o final da era de um jogo, o do hero-ball (o do um-contra-um), cada vez menos em moda na NBA atual. Eu venerava seus acertos. Eu compreendia seus erros. Eu me arrepiava com sua obsessão por melhora. Eu te defendia mesmo sabendo que você fazia as coisas erradas em quadra. Você era o erro que eu cometeria. Você era o acerto que eu sonhava. Você suava o sangue que eu gritava. Você não era humano mas pra gente parecia algo bem próximo.

Querido Kobe, obrigado. Você foi o meu Ayrton Senna. Jamais esqueceremos de você.

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