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Basquete e solidariedade na cidade que nunca morre, por Pedro Beneli

Urubatan - Divulgação Assis
Urubatan Imagem: Divulgação Assis
Fábio Balassiano

Por aqui você verá a análise crítica sobre tudo o que acontece no basquete mundial (NBB, NBA, seleções, Euroliga e feminino), entrevistas, vídeos, bate-papo e muito mais.

16/01/2020 13h05

* Por Pedro Beneli

Vivemos no país onde o conceito da palavra 'valor' pode ser facilmente distorcida. Para o bem, para o mal, dependendo da situação. No nosso caso, em um blog de basquetebol, qual seria a definição da palavra em questão no âmbito esportivo para a cidade (empresários, governantes, colaboradores) em que você, caro leitor, vive? O assunto hoje menciona um caso diferente da maioria, porém semelhante a muitos pelo Brasil. Vamos lá.

Estamos em Assis, interior do estado de São Paulo. Cidade com pouco mais de 100 mil habitantes. Aqui, desde muito tempo, o esporte lança talentos. Para nós, os nomes mais próximos são os de uma garotinha chamada Paula (a mágica, para os íntimos), Alex Garcia e Urubatan Lopes Paccini. Expandindo para os outros esportes, Jefferson (goleiro de seleção brasileira) e Paulo Victor (goleiro, atualmente no Grêmio), entre tantos outros. A história de cada um deles fica pra outro dia. Não por questão de importância, mas apenas para salientar que o momento é de reflexão. Começamos 2020 com um panorama positivo. Boa campanha nos jogos Pan Americanos de Lima, ânimo para participar de mais uma olimpíada renovado. Mas, voltando ao nosso tema, e a nossa cidade? E a sua cidade?

Em Assis, o último nome relacionado ao basquete citado acima tem sido constantemente lembrado. Para quem não conhece, Urubatan Lopes Paccini - Uruba para os chegados - esteve à frente do comando da equipe adulta masculina da cidade por 25 anos. Sempre com um basquete sólido, incomodando os grandes. Em meados de 95/96, Alex Garcia foi encontrado, abrigado e lançado ao mundo por Uruba. Conquistando títulos, Uruba levou a equipe ao acesso para disputar a divisão de elite do basquete paulista no início da década de 2000. Depois de algum tempo, foi desligado do cargo, sem explicações plausíveis, e posteriormente tal lugar foi assumido Marco Antonio Aga, técnico que também é bastante lembrado por aqui. Franca, Bauru, Flamengo, Brasília e Ribeirão são alguns dos times que costumavam sentir o calor da torcida assisense.

Mas não percamos o foco. Lembrem-se, estamos aqui hoje para refletir. Assis perdurou do começo dos anos 2000 até 2011/12 entre as melhores equipes de basquete masculino do Brasil. Fundador do NBB, destaque no campeonato paulista, convidado por times da Europa a participar de campeonatos de verão. Arnaldinho, Fúlvio, Nezinho, Di, Jefferson, Ricardo Probst, Lucas Tischer.. Nomes fortes no cenário nacional, que jogaram e criaram identificação com a cidade. E de repente tudo acaba. Com a retirada do patrocínio máster da equipe em 2011, a folha salarial da equipe foi bastante prejudicada, e não demorou muito a ser obrigado a fechar as portas do belo Jairão por um longo período.

Se identificou? Aposto que sim. Mas vamos seguir.

A diferença/semelhança em Assis é que a cidade possui entusiastas do esporte. No basquete, esse cargo é fortemente representado por Márcio Kanthack, jogador na época de Uruba, assistente na época de Marco Aga e logo depois treinador do time juvenil chegando ao time adulto.

Márcio acreditou no basquete, e nunca deixou as coisas pararem por completo. A cidade ficou sem um time de alto rendimento por um tempo, mas ele, junto com Uruba (olha ele aí de novo), apostou nos meninos da cidade, e ficou todo esse tempo no comando do time juvenil. O fruto? Em 2016, com um trabalho consistente, levou a cidade ao título de Campeão Paulista da 2ª divisão, dessa vez conseguindo montar um time adulto. Acesso conquistado, 2017 é ano de disputar a elite, certo? Hum, não! Resposta dura. Os empresários da cidade não se propuseram a ajudar a equipe, e em época de crise quem iria, certo?

Julgamentos a parte, Assis nunca parou com o basquete. Em 2019, depois de jogar novamente a A2 paulista, sagrou-se campeã utilizando somente atletas da cidade e a promessa é de um 2020 participando do Campeonato Paulista da divisão especial, dessa vez com parceiros dispostos a colaborar ($$$$$). Ótima noticia para a população da cidade. Que alias é em quem devemos focar hoje.

O basquete é visto como o esporte predileto por jovens e até mesmo os cinquentões da cidade. Sempre com as quadras de parques e clubes lotadas (e as de futsal vazias), o basquete só parou no âmbito do alto rendimento durante o período citado acima. Tão verdade, meus caros, que chegamos a grande notícia de hoje: em 2016, cansados de só bater bola, um grupo de amigos da cidade resolveu mudar um pouco o panorama do esporte, criando um campeonato amador de basquete. Até aí normal, né? Quantos lugares não tem isso?

Liderados por um estudante de medicina e um de direito da cidade, criaram a prerrogativa de uma ajuda a instituições carentes da cidade através desse campeonato. Inicialmente entre amigos, e hoje na 5ª edição anual consecutiva estão prestes a chegar no impressionante número de 1 tonelada de alimentos arrecadados.

Para organização do evento, montaram uma diretoria, fizeram uma associação em cartório, e viraram gente grande. O nome do torneio? Copa Amadora de Basquete Solidário Urubatan Lopes Paccini. Não poderia ser diferente. Uruba virou patrono do torneio por iniciativa dos garotos, e é figurinha carimbada em todas as edições. Entre todos esses anos, mais de 30 equipes passaram pelo torneio, e nessa edição (dias 24, 25 e 26/01) terá transmissão ao vivo por um veículo de comunicação da cidade e cobertura de uma afiliada da Tv Globo. Bacana, não? Um dos organizadores afirma que a região já comenta sobre o torneio todo final de ano. Segundo ele, teremos times de Marília, Londrina, Paraguaçu Paulista, Porecatu (PR), Rancharia nesse ano. A ideia, sem fins lucrativos, é sustentada com o auxilio de empresas da cidade, pedido de porta em porta pelos garotos pacientemente meses antes do torneio.

Daí, podemos, incomodamente voltar a nossa pergunta inicial: qual o valor que damos ao nosso mundo? Ao nosso esporte? Ao próximo? Finalizando, tudo isso mostra como é difícil manter o nosso esporte nesse país. E também mostra como é fácil levar uma ideia bacana pra frente, se tivermos força de vontade. Que em 2020 tenhamos essa força para tudo o que nos propormos a fazer. Proponha-se a iniciar ideias que ajudem o mundo. Estamos, de verdade, precisando!

Pedro Henrique L. Beneli, fundador da Copa Amadora de Basquete Solidário Urubatan Lopes Paccini.

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