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André Rocha

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Com goleiro, saúde e espaços, Flamengo ganha paz antes do Tolima

O goleiro Santos, do Flamengo, acenando para torcida - Foto: Gilvan de Souza / Flamengo
O goleiro Santos, do Flamengo, acenando para torcida Imagem: Foto: Gilvan de Souza / Flamengo
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André Rocha

André Rocha é jornalista, carioca e colunista do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros "1981" e "É Tetra". Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Contato: anunesrocha@gmail.com

Coluna do UOL Esportes

26/06/2022 08h52

Vagner Mancini e Dorival Júnior são amigos de longa data. Em 2015, viajaram pela Europa buscando contatos e conhecimento com Pep Guardiola, Carlo Ancelotti e outros treinadores consagrados.

Antes do jogo no Maracanã, o treinador do América passou informações ao novo comandante do Flamengo sobre o Tolima e a dura viagem a Ibagué que o time mineiro enfrentou na fase de grupos da Libertadores.

No jogo, aí sem querer, Mancini novamente foi generoso com Dorival ao ceder tudo que o time rubro-negro necessitava para aliar desempenho e resultado e ganhar a paz que precisava antes de "virar a chave" do Brasileiro para o torneio continental: espaços.

Não dá para dizer que a estratégia estava totalmente equivocada. Precisando também da vitória para escapar do risco do Z-4, a equipe mineira adiantou a marcação contra uma última linha de defesa com zagueiros lentos e atabalhoados (Gustavo Henrique e Léo Pereira) e laterais que atacam melhor que defendem (Rodinei e Ayrton Lucas), além do adversário não contar na frente com um atacante velocista para incomodar a avançada retaguarda americana. O trio ofensivo era formado por Pedro, Gabigol e De Arrascaeta.

Dorival armou uma variação do 4-3-1-2 para o 4-3-2-1, de acordo com a movimentação de Arrascaeta, que desta vez não sofreu marcação tão dura, muito menos revezamento de faltas. Com Ayrton Lucas mais preso e preocupado com a rapidez de Everaldo, Rodinei foi o escape pela direita, liberado para atacar e contando com a cobertura de três meio-campistas.

Com Willian Arão no banco, Thiago Maia teve nova oportunidade e entregou a vitalidade que vinha faltando ao volante mais fixo à frente da defesa. Andreas Pereira e João Gomes completaram o trio com dinamismo no trabalho de ida e volta, combate e articulação. Mais saúde em setor fundamental.

Na frente, Pedro na referência e Gabigol e Arrascaeta circulando. Ainda com muitos erros técnicos, mas com o campo para acelerar que não tiveram nem nas duas partidas contra o Atlético no Mineirão. Nenhum dispara como Bruno Henrique, mas conseguem chegar na frente dos zagueiros com frequência.

Alguma dificuldade no primeiro tempo de chances apenas no jogo aéreo com bola parada no início e finalizações de Gabigol quando o camisa nove despertou na partida. Foram nove da equipe nos primeiros 45 minutos, quatro no alvo. A mais bem-sucedida na assistência de Pedro, que girou em cima do zagueiro Eder e abriu um clarão até o passe para Gabi enfim ser eficiente na sua especialidade.

Mérito também do goleiro Santos, de volta ao time depois de longo período lesionado, que armou a saída de bola como se fosse pelo chão, atraiu o já ousado adversário para o próprio campo e acionou diretamente o pivô. Quase um contragolpe com origem no tiro de meta.

O segundo tempo foi um "convite ao prazer", como diria o carismático narrador Romulo Mendonça, da ESPN Brasil. O América avançava as linhas, não encaixava a pressão e o Flamengo várias vezes conseguiu igualdade ou até superioridade numérica no ataque. Especialmente Arrascaeta, circulando livremente entre a defesa e o meio-campo do oponente.

O problema novamente foi a baixa efetividade nas chances criadas, principalmente de Gabigol, que desperdiçou duas na frente do goleiro Matheus Cavichioli e bateu para fora o pênalti sofrido por Arrascaeta. Coube ao uruguaio, já com Everton Ribeiro no lugar do camisa nove, que saiu do campo vaiado e aplaudido quase na mesma medida pelo som captado pela transmissão do Premiere, fazer o gol do desafogo em outra transição ofensiva com toda liberdade.

Só houve um período de apreensão no Maracanã, quando o América se encheu de moral depois de Gabi perder o pênalti e foi às redes, mas em claro impedimento, e finalizou com perigo. Mas desta vez o Flamengo não tinha na meta um jovem inseguro ou um veterano em fim de carreira. Contava com quem tem que ser o titular, sem o revezamento Brasileiro/Copas de Paulo Sousa, nem a "diplomacia" de Dorival escalando o ex-desafeto Diego Alves. Santos apareceu bem com cinco defesas, duas de goleiro de alto nível.

No final, sobrou espaço até para Marinho, que substituiu Pedro, enfim armar sua jogada característica, cortando da direita para dentro e chutando forte para fechar os 3 a 0. Terminando com 23 finalizações, 18 de dentro da área e sete no alvo. Vitória fundamental para não entrar na zona de rebaixamento, mas para se manter na primeira página da tabela será preciso pontuar fora de casa, a partir do duelo com o Santos na Vila Belmiro.

Mas antes tem o Tolima. Viagem desgastante, jogo decisivo. Sem o pilar João Gomes, suspenso. Mas mesmo precisando levar uma boa vantagem para a volta, o time colombiano dificilmente dará os espaços que o time de Mancini concedeu ao de Dorival. Com goleiro, mais saúde e campo aberto, o Flamengo, mesmo sem confiança e se redesenhando taticamente, sobra pela qualidade individual que apareceu, ainda que espasmos, no Maracanã.

(Estatísticas: SofaScore)