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André Rocha

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Será que hoje o palmeirense consciente entende as críticas de antes?

Gustavo Scarpa, do Palmeiras, comemora seu gol contra o Atlético-GO no Brasileirão -  Ricardo Moreira/Getty Images
Gustavo Scarpa, do Palmeiras, comemora seu gol contra o Atlético-GO no Brasileirão Imagem: Ricardo Moreira/Getty Images
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André Rocha

André Rocha é jornalista, carioca e colunista do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros "1981" e "É Tetra". Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Contato: anunesrocha@gmail.com

Colunista do UOL Esporte

16/06/2022 20h00

O gol contra de Luan aos 29 minutos no Allianz Parque complicaria a vida do Palmeiras de 2021. Até pela boa atuação do Atlético-GO de Jorginho, negando espaços, fechando o corredor de Dudu pela direita e tentando jogar, com Marlon Freitas se juntando a Rato, Jorginho e Luiz Fernando, mais Churin no pivô.

Mas o Palmeiras de Abel Ferreira hoje tem múltiplas ferramentas e, principalmente, a proposta de atacar e criar espaços. Mesmo com Gustavo Gómez adaptado à lateral direita, auxiliando Luan e Murilo na saída de bola e liberando Piquerez para abrir o campo pela esquerda, viabilizando as infiltrações em diagonal de Gabriel Verón, encostando em Rony e Gustavo Scarpa.

Seguiu ocupando o campo de adversário com calma e virou com jogadas ensaiadas: inversão de Luan da direita achando Verón pela esquerda, que rolou para Zé Rafael aparecer como o volante que surpreende a marcação e finaliza. Depois no escanteio, básico mas eficiente: cobrança na primeira trave, desvio de Luan e Gómez conferindo na segunda.

Aos 44 do primeiro tempo, o Alviverde de antes administraria para ir para o intervalo com a virada. Mas agora a intenção é "rodar a faca" e Scarpa aproveitou transição rápida e, em novo escanteio, mais um de Gómez. Em sete minutos, goleada construída. Administrada no segundo tempo, com relaxamento natural depois das substituições e da expulsão de Arthur Henrique, e o gol de Churin no final que decretou os 4 a 2.

Mesmo com dois gols sofridos depois de seis partidas consecutivas com a meta intacta, o Palmeiras abre três pontos sobre o vice-líder Corinthians, mas a vantagem em desempenho é maior do que o que consta na tabela. Mesmo com o desfalque do lesionado Raphael Veiga, é o melhor time do país e do continente no momento, com boa vantagem sobre os demais. Em junho não garante mais taças em 2022, porém sinaliza o amadurecimento de um trabalho.

Será que hoje o palmeirense consciente é capaz de entender e não tachar de "perseguição clubista" as críticas ao futebol de antes do bicampeão da Libertadores? Parecia claro que esse elenco podia entregar muito mais há tempos. Mas muitos acreditaram no discurso escancarado de Vanderlei Luxemburgo e velado de Abel Ferreira, de que o elenco só podia entregar aquele jogo com graves restrições no trabalho ofensivo.

Outros alegavam falta de tempo, que de fato houve na insana temporada 2020, mas no ano seguinte a eliminação precoce na Copa do Brasil entregou semanas livres para Abel trabalhar. Mais tempo quando o treinador resolveu abandonar o Brasileiro e focar na Libertadores.

E a proposta seguia a mesma: recuar ao abrir o placar, retrancar quando se via inferior ao adversário, como contra o Atlético Mineiro na Libertadores, até no Allianz. Contra equipes mais fracas que abriam o placar e se fechavam, muita dificuldade. Como na emblemática derrota em casa por 2 a 0 para o Cuiabá.

Porque Abel, discípulo de José Mourinho, preferia se manter apegado às suas convicções. Agora, com a confiança dos títulos, contrato renovado com aumento substancial e devoção de diretoria e torcida, ele parte para uma evolução no trabalho. Mais alinhado aos melhores treinadores do mundo na atualidade, que equilibram defesa e ataque e sabem fazer suas equipes se imporem na maioria das partidas.

Como esse elenco sempre teve potencial para fazer. Não era difícil notar, mas muitos palmeirenses preferiam o negacionismo, vendo futebol de qualidade onde não existia, ou o conformismo do discurso "com esses jogadores só dá para fazer isso". Não era verdade, assim como em 2016, com Cuca, e em 2018, com Felipão, a qualidade era subaproveitada.

As críticas eram justas, assim como os elogios agora são adequados. Não é vergonha admitir que todo aquele ódio, por aqui e nas redes sociais, não fazia sentido. Mas faz parte do ofício de quem trabalha sério e espera sempre um jogo de qualidade de quem pode proporcioná-lo.

O Palmeiras sobra. Aplausos para Abel Ferreira, comissão e atletas. Podem não ganhar nada no segundo semestre, como venceram antes sem o nível de agora. Vale mais a mudança de mentalidade que se reflete no campo.