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André Rocha

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Flamengo vai trocar de técnico até entender que 2019 foi desvio, não padrão

 Michel, jogador do Ceará, marca Bruno Henrique, do Flamengo, durante partida no Castelão pelo campeonato Brasileiro A 2022.  - Lucas Emanuel/AGIF
Michel, jogador do Ceará, marca Bruno Henrique, do Flamengo, durante partida no Castelão pelo campeonato Brasileiro A 2022. Imagem: Lucas Emanuel/AGIF
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André Rocha

André Rocha é jornalista, carioca e colunista do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros "1981" e "É Tetra". Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Contato: anunesrocha@gmail.com

Colunista do UOL Esporte

15/05/2022 08h36

O Flamengo poderia ter saído do Castelão com vitória sobre o Ceará.

Mesmo sem jogar bem, apesar do gramado ruim. Teve alguns momentos de trabalho coletivo interessante no primeiro tempo, não concretizados por erros técnicos e de tomadas de decisão dos atacantes, Pablo cabeceou uma bola no travessão, aproveitando as muitas falhas do adversário no jogo aéreo, que renderam os gols de Willian Arão. Ainda houve um pênalti claro e não marcado sobre Gabigol, pouco antes do gol de Nino Paraíba que definiu os 2 a 2.

Defensivamente, falhou na desconcentração ao permitir a cobrança rápida da falta que acionou Mendoza em velocidade às costas da retaguarda no primeiro gol e Hugo errou novamente na meta, desta vez ao tentar "adivinhar" o cruzamento, se adiantar e ser surpreendido na cobrança de falta que decretou o empate..

Os três pontos seriam fundamentais para começar a reagir no Brasileiro. A falta de resultados pode custar o emprego de Paulo Sousa.

O treinador português é parte de um problema maior, que passa inclusive pelos "critérios" de contratação da atual gestão. Começando por Abel Braga, acertando em cheio com Jorge Jesus e depois batendo cabeça com Domènec Torrent, Rogério Ceni, Renato Gaúcho e o técnico da vez.

A aposta na estabilidade do elenco, com vários contratos longos e contratações pontuais depois das concretizadas no início de 2020, a pedido de Jesus, criou uma aura de superioridade que contamina clube e torcida. Brilharam há três anos e se não conseguem agora, a culpa é do treinador.

Não entendem que 2019 é exceção, o desvio. Um ano em que se conquista o Brasileiro batendo o recorde de pontos e ainda emenda com a Libertadores só aquele time, naquele momento conseguiu. Havia um jejum de grandes títulos no clube desde 2013, jogadores e treinador chegando querendo mostrar serviço e vencer.

Principalmente o fator surpresa, com uma proposta de jogo avassaladora e que tinha a resposta física, tática e técnica dos atletas. Um rolo compressor que naquele ano também contou com a concorrência mais fraca no país: o Grêmio de Renato Gaúcho, o Corinthians de Fabio Carille e o Palmeiras de Felipão não foram páreos.

Agora é urgente ter mais humildade. A torcida pode bravatear à vontade, também não é proibido surtar em redes sociais. Mas ficar trocando de técnico não é solução. Mais inteligência na contratação, sim, é essencial.

Assim como é obrigatório entender que o sarrafo subiu, as conquistas e a visibilidade do time de maior torcida do país motivam os adversários, que já conhecem as virtudes e defeitos rubro-negros. A grande maioria dos jogos será difícil, decidida nos detalhes.

Não mais os 3 a 0 no Castelão há três anos, com o "grand finale" no golaço de Arrascaeta que concorreu ao Prêmio Puskas. Será mais complicado, mesmo contra um Ceará que vinha de três derrotas seguidas no Brasileiro e desfalcado no meio-campo.

É necessário aceitar a pressão de um oponente em casa também precisando do resultado. Defender melhor, tirar a velocidade do jogo, evitar o modo "briga de rua" e ser eficiente nos contragolpes. Não desperdiçar chances, evitar entregar gols e entender que, com titulares envelhecidos, não dá para amassar durante 90 minutos, em todas as partidas, com perde-pressiona e ataque em massa.

O Flamengo ainda é forte e candidato aos títulos que disputa, mas não basta jogar quando quer. E é tolice achar que os rivais vão se curvar ao menor sinal de que o favorito está no dia de se impor. Ninguém vai dar nada de graça e as estrelas precisam brilhar hoje e não viver do nome que construíram lá atrás.

Mas para isso, o primeiro passo é reformular o departamento de futebol. Tirar a politicagem e as trocas de favores e colocar competência na gestão. O "poder paralelo" de Jorge Jesus não pode ser o modelo, que agora tentam repetir com Paulo Sousa e sua numerosa comissão técnica.

O Flamengo não pode viver de felizes coincidências. De espasmos, De encaixes mágicos esporádicos. É um orçamento que pede bom trabalho. Para ser competitivo de fato.

Sem isso o treinador sempre será o culpado e o fritado. Porque não é Jorge Jesus, o único a se impor no meio da desordem. E até ele sofreria no contexto atual. Milagre não acontece todo dia.