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André Rocha

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Guardiola está raivoso porque a Premier League ficou "pequena" para ele

Pep Guardiola, técnico do Manchester City, lamenta gols do Real Madrid durante jogo da Champions - Juan Medina/Reuters
Pep Guardiola, técnico do Manchester City, lamenta gols do Real Madrid durante jogo da Champions Imagem: Juan Medina/Reuters
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André Rocha

André Rocha é jornalista, carioca e colunista do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros "1981" e "É Tetra". Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Contato: anunesrocha@gmail.com

Colunista do UOL Esporte

14/05/2022 08h45

O Manchester City não permitiu que a traumática eliminação da Liga dos Campeões fizesse estrago na campanha da Premier League. Enfiou quatro no Leeds e cinco no Newcastle, e viu a vantagem sobre o Liverpool aumentar de um ponto para três, com o empate dos Reds contra o Tottenham.

Mas Pep Guardiola anda raivoso. Amargo. Primeiro foi uma declaração estranha e desnecessária, afirmando que a Inglaterra toda torce para o Liverpool vencer a liga inglesa, por causa do sucesso em competições europeias, emendando com a provocação de que só ganharam um título na Era Premier League nos últimos trinta anos.

Jürgen Klopp respondeu com elegância e inteligência: nem em Liverpool a sua equipe tem 100% da torcida, já que um apaixonado pelo Everton não ficaria feliz vendo o rival campeão. Óbvio. Isso sem contar boa parte da torcida do United que não quer o Liverpool igualando os 20 títulos dos Red Devils, mesmo que seja com mais uma conquista para o lado azul de Manchester.

O treinador alemão ainda deu a cutucada certa no seu grande oponente: "Não sei como está Pep depois de ser eliminado da Champions League, e o Liverpool chegou na final".

Eis o ponto. Guardiola sentiu o golpe. Por isso não se furtou de rebater críticas de Seedorf, Berbatov e Evra, todas na linha de que faltou personalidade ao City contra o Real pela ausência de jogadores com personalidade para decidir, porque Pep teria controle total sobre o elenco e não permitiria improvisações ou algo do tipo.

O alvo principal foi Evra, que perdeu duas finais de Champions para o Barcelona comandado por Guardiola, em 2009 e 2011. Sintomático que o catalão lembrasse justamente dos títulos continentais que ganhou, o último há onze anos.

Faz tempo, e isso está claramente pesando. O Manchester City provavelmente será novamente o campeão inglês. Outro bicampeonato, assim como em 2017/18 e 2018/19. Quatro em seis disputadas.

Se Carlo Ancelotti conseguiu com a conquista de La Liga ser o primeiro a vencer os cinco principais campeonatos nacionais da Europa, Guardiola ostenta um currículo invejável nos pontos corridos: Venceu três em quatro pelo Barcelona, as três edições da Bundesliga que disputou pelo Bayern de Munique a agora caminha para consolidar um domínio na Inglaterra. No total, dez em 14 anos de carreira, incluindo o "ano sabático" da temporada 2012/13.

Não é pouco, mas parece que também não é mais suficiente. O City e seu treinador precisam de uma Champions.

Talvez Guardiola viva um conflito, já que considera, com razão, que os pontos corridos premiam o melhor trabalho. Zinedine Zidane já afirmou que se orgulha mais da liga espanhola que conquistou em 2016/17 do que do tri da Liga dos Campeões pelo time merengue.

Por isso Pep desfigurou sua equipe nos minutos finais no Santiago Bernabéu, pensando já estar classificado e mirando o fim de semana contra o Newcastle, com o Liverpool ainda a um ponto na luta pela liderança. Colocou Fernandinho e Grealish, que perderam as chances mais claras de gol, no tempo normal e na prorrogação. Este último que custou 100 milhões de euros para ficar mais tempo na reserva que em campo.

Guardiola ficou a seis minutos de uma final de Champions, que seria emblemática contra o Liverpool de Klopp. Um "tira-teima" histórico. Mas quem vai a Paris é o Real Madrid, que havia "ressuscitado" contra PSG e Chelsea e Pep achou que estivesse morto depois do gol de Mahrez.

Pagou caro e agora resta confirmar mais um título inglês. É claro que Guardiola vai celebrar e valorizar a conquista. Mas para este grande técnico da história do futebol, a Premier League ficou "pequena". Ou banalizou, mesmo sendo o grande campeonato nacional do planeta.

Por isso a irritação na semana em que o City encaminhou a contratação de Erling Haaland, um dos atacantes mais promissores do mundo. Para tentar ganhar a Champions que precisa ser a obsessão na próxima temporada, nem que seja preciso abrir mão dos pontos corridos, administrando apenas um G-4, caso tudo dê errado em mais uma aventura europeia.

É urgente tapar esse buraco. No currículo e na mente de Pep Guardiola.