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André Rocha

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Rocha: A grande injustiça no fracasso da seleção em 1990 não foi com Neto

Bebeto em ação na Copa América de 1989 - Vidal Cavalcante/Folhapress
Bebeto em ação na Copa América de 1989 Imagem: Vidal Cavalcante/Folhapress
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André Rocha

André Rocha é jornalista, carioca e colunista do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros "1981" e "É Tetra". Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Contato: anunesrocha@gmail.com

Colunista do UOL Esporte

06/12/2021 07h03

A série produzida pela parceria do UOL Esporte e MOV.doc é um belo registro histórico sobre o fracasso brasileiro na Copa de 1990. Depois de 1966, saindo na fase de grupos, a eliminação mais precoce do país cinco vezes campeão mundial.

A trajetória até a Itália foi, de fato, cheia de altos e baixos. Eurico Miranda, então diretor técnico da CBF, definindo Sebastião Lazaroni como o treinador, apenas três anos depois de assumir o comando técnico do Flamengo sucedendo Joubert Meira, em sua primeira experiência efetiva no cargo.

Derrotas na excursão à Europa, crise no início da Copa América, a virada e o título que não vinha desde 1949. Depois excursão bem-sucedida a Europa, com vitórias sobre Itália e Holanda. Lesão de Romário, polêmica sobre premiações, derrota para seleção da Umbria às vésperas da estreia no Mundial, vitórias magras sobre Suécia e Costa Rica. Nova crise com a discussão entre treinador e grupo sobre mudanças no time contra a Escócia.

Enfim, a derrota para a Argentina de Maradona nas oitavas, justamente na melhor atuação brasileira naquela Copa. Execração pública, Dunga como bode expiatório, demonização de Lazaroni, que foi treinar a Fiorentina.

Também a reclamação (infundada) de Neto por não ter sido convocado. O camisa dez do Corinthians nunca justificou uma possível lembrança e só se destacou mesmo no segundo semestre daquele ano, como a grande estrela do primeiro título brasileiro do clube. Bismarck, tão contestado pela imprensa paulista, tinha sido um dos destaques da campanha do Vasco campeão brasileiro no ano anterior e mantivera o rendimento no ano seguinte.

Enfim, foram muitas lições que seriam aproveitadas no título conquistado quatro anos depois, nos Estados Unidos. Considerando a Copa do Mundo, Taffarel, Jorginho, Branco e Dunga foram os únicos titulares remanescentes. Já levando em conta a Copa América de 1989, o número aumenta consideravelmente: Taffarel, Mazinho, Aldair, Branco, Dunga, Bebeto e Romário.

Talvez este tenha sido o grande equívoco de Lazaroni: as muitas mudanças depois de uma conquista com o time bem ajustado. Os retornos de Jorginho e Careca nas eliminatórias tinham muita coerência e ambos responderam bem no campo. Eram mesmo titulares indiscutíveis.

Mas um amistoso na Europa, já em março de 1990, foi um divisor de águas que começou a mudar para pior a seleção: Inglaterra 1x0 Brasil em Wembley. Gol do grande artilheiro Gary Lineker. Muller, que entrara no segundo tempo, marcou o gol de empate, mas um absurdo erro da arbitragem invalidou o lance - a bola cruzou a linha e o defensor inglês ainda tentou impedir com a mão. Ele e Alemão, que substituiu Silas, de fato melhoraram o desempenho da seleção.

Mas era contexto de um jogo difícil. O "English Team" chegou até a semifinal da Copa e foi eliminada pela campeão Alemanha apenas nos pênaltis. Silas, de fato, viveu queda técnica por conta de lesão e mereceu a saída do time.

Bebeto, não. Até porque merecia créditos por um 1989 espetacular. Craque e artilheiro da Copa América, campeão brasileiro pelo Vasco. Sintonia fina com Romário, mas bom entendimento também com Careca. É de Bebeto o passe espetacular para o centroavante marcar contra o Chile, no Maracanã, o gol da classificação para o Mundial - farsa do goleiro chileno Rojas à parte.

O camisa sete era a grande chave tática que dava liga ao 3-5-2, ou 3-1-4-2 de Lazaroni. Porque os meias à frente de Dunga atuavam bem abertos, auxiliando os laterais nas tabelas e ultrapassagens. Cabia a Bebeto uma função híbrida de segundo atacante e camisa dez, funções que exercera no início da carreira no Flamengo.

Recuava, articulava com os meio-campistas, dava opção para os alas pelos flancos e era o responsável pelo passe criativo - o gol do título da Copa América passa por um toque de Bebeto entre as pernas do defensor para Mazinho cruzar e Romário definir a vitória sobre o Uruguai.

Bebeto não fez um primeiro semestre de 1990 no mesmo nível, mas cumpriu algumas boas atuações no vice-campeonato estadual do Vasco. Talvez por atuar no Brasil e Muller na Itália (Torino) tenha perdido espaço. Ou foi o lobby de Careca pelo ex-companheiro de São Paulo. Lazaroni dizia que contava com duas duplas fixas de ataque. Como Romário não se recuperara totalmente da lesão, Bebeto não jogava, embora se destacasse nos treinamentos.

Então veio uma contusão antes do jogo contra a Escócia, em choque com o goleiro Zé Carlos, e Bebeto nem teve a chance de entrar contra a Argentina para tentar reverter o quadro. Renato Gaúcho, a quinta opção, foi utilizado e pouco acrescentou. E Muller perdeu gol feito no final. Poderia ter sido diferente.

E foi, quatro anos depois. Com um Bebeto mais maduro como estrela do La Coruña e ainda mais entrosado com Romário. Três gols, um fundamental contra os Estados Unidos nas oitavas, mais duas assistências. Lugar garantido na segunda prateleira de destaques em 1994, só abaixo do Baixinho.

Foi o erro fatal de Lazaroni, ao menos nas escolhas para o time titular. A grande injustiça silenciosa no maior fracasso brasileiro depois de 1970.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL