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André Rocha

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Rocha: Quanto mais o Flamengo erra, maior é o "sebastianismo" com Jesus

Pedro em treino do Flamengo sob chuva - Alexandre Vidal/CRF
Pedro em treino do Flamengo sob chuva Imagem: Alexandre Vidal/CRF
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André Rocha

André Rocha é jornalista, carioca e colunista do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros "1981" e "É Tetra". Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Contato: anunesrocha@gmail.com

Colunista do UOL Esporte

26/10/2021 07h27

Fraco desempenho nas últimas partidas, departamento médico e preparação física questionados pelo excesso de lesões, com o "epicentro" no caso da cirurgia de menisco no joelho direito de Pedro. Críticas pesadas a Renato Gaúcho.

O clima no Flamengo, apesar de ser finalista da Libertadores, estar a uma vitória sobre o Athletico da decisão da Copa do Brasil e ainda ter chances matemáticas de título brasileiro, é de tensão e pressão na reta final da temporada.

Com ele vem um discurso que se repete nas ruas e redes sociais: "Jorge Jesus nunca mais! Ou será que um dia ele volta?"

A passagem do treinador português como um cometa pelo futebol brasileiro foi marcante porque o trabalho de 12 meses teve oscilações apenas no início e no final, mas totalmente compreensíveis.

Jesus não conhecia bem o futebol brasileiro e vivia seu segundo mês no país quando enfrentou o período mais turbulento: eliminação nos pênaltis para o Athletico na Copa do Brasil e derrota por 2 a 0 fora de casa para o Emelec. Com Rodinei e Rafinha atuando juntos pela direita.

Teve sorte e competência para confirmar a vaga nas quartas da Libertadores com a vitória no Maracanã sobre os equatorianos, nos pênaltis. Para "ganhar" um mês de setembro com poucos jogos e muitos treinamentos e acertar o time que atropelaria nos meses seguintes até quebrar o recorde nos pontos corridos, faturar a Libertadores e perder o Mundial para o poderoso Liverpool apenas na prorrogação.

2020 já necessitando de ritmo de competição no início, com o time voltando a entrar em campo pelo Carioca apenas uma semana depois da volta das férias. Deu certo, com os títulos da Supercopa do Brasil, Recopa Sul-Americana, além da Taça Guanabara. Duas vitórias na fase de grupos da Libertadores e a pandemia virou tudo do avesso, inclusive a cabeça do técnico.

A outra queda de produção veio na reta final do Carioca, com os rumores crescentes do retorno de Jesus ao Benfica. Comandante silencioso, enigmático. Time apático que perdeu a Taça Rio para o Fluminense, nos pênaltis, mas não deixou escapar o bicampeonato estadual. Fechando o ciclo de cinco títulos e apenas quatro derrotas.

Uma trajetória que é de exceção, histórica. Mas ficou como referência eterna. E assim Domènec Torrent vira "estagiário", Rogério Ceni o "técnico para o Fortaleza" e, agora, Renato Gaúcho é "boleirão demais".

Diante de tantos problemas, a saudade de um comandante que fechou o CT, colocou seus profissionais para trabalhar e liderou os que já estavam no clube, inclusive pressionando o departamento médico para colocar os jogadores lesionados em condições no tempo mais curto possível, é inevitável.

Com ela vem uma espécie de "sebastianismo" - referência à crença mística em Portugal no século XVI, de que o Rei Sebastião, desaparecido em uma batalha, voltaria como um messias para novos tempos de glória. Para muitos rubro-negros, o clube só atingirá definitivamente o "outro patamar" e uma hegemonia sólida no Brasil e no continente com a volta de Jesus.

Ainda que os problemas atuais passem também por ele, que foi embora levando sua comissão e não deixando nenhum legado para os sucessores. Zero registro da metodologia, apenas algumas anotações que Filipe Luís diz guardar para quando for treinador. Legítimo trabalhar assim, mas atrapalha a sequência no clube.

Com isso a régua fica quase inatingível. Até porque o contexto atual é bem diferente de 2019 e não há como garantir que o próprio Jorge Jesus conseguiria os mesmos feitos em 2021. São oito remanescentes daquele time base, porém dois anos mais velhos e, agora vencedores, sem aquela "fome" de vitórias e conquistas.

Os mais desesperados que querem Renato Gaúcho demitido agora falam em Juan Pablo Vojvoda e Marcelo Gallardo. Mas na primeira sequência ruim alguém duvida que o primeiro seria tachado, assim como Ceni, de "técnico para o Fortaleza" e o ainda treinador do River Plate ganharia o rótulo de "ruim nos pontos corridos", como Renato? Ou, ainda, uma tese de que "é bom, mas perdeu para o Jorge Jesus".

Enquanto o Flamengo não resolver suas questões internas e sinalizar um caminho para o pleno profissionalismo, buscando os melhores em todas as áreas dentro de uma estrutura sólida, a lembrança dos tempos áureos de Jesus estará presente como um "fantasma".

Se der tudo errado na quarta e a vaga na final da Copa do Brasil não vier, pode esperar "Jorge Jesus" nos assuntos mais comentados no Twitter. Ou até o "Mister, Mister" cantado no Maracanã depois do apito final. Alguém duvida?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL