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André Rocha

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Seleção de Tite mostra que não pode entregar nada além de futebol

Marquinhos, zagueiro da seleção brasileira, que foi capitão contra o Paraguai - Lucas Figueiredo/CBF
Marquinhos, zagueiro da seleção brasileira, que foi capitão contra o Paraguai Imagem: Lucas Figueiredo/CBF
André Rocha

André Rocha é jornalista, carioca e colunista do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros "1981" e "É Tetra". Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Contato: anunesrocha@gmail.com

Colunista do UOL Esporte

09/06/2021 07h36

A seleção brasileira fez história no Defensores del Chaco em Assunção. Venceu o Paraguai por 2 a 0, repetindo o placar da última vitória no estádio, em 1985. Ainda igualou as seis vitórias consecutivas em eliminatórias das "Feras do Saldanha", em 1969.

Mesmo sem um desempenho brilhante, a equipe de Tite chamaria para si as atenções pelos resultados expressivos e domínio no cenário sul-americano. Quem hoje é indiferente ao futebol de seleções provavelmente aproveitaria para dormir mais cedo.

Mas eles prometeram se pronunciar sobre a Copa América realizada no Brasil. País que é um dos epicentros da pandemia no planeta e aceitou receber o torneio que Argentina e Colômbia se disseram incapazes de sediar, também pelos casos de Covid.

Caso não tivessem se manifestado, haveria aqui e ali uma justa crítica contra o silêncio que desrespeita quase meio milhão de cidadãos brasileiros mortos. Mas a grande maioria não espera grandes momentos de consciência social e humanitária de quem vive em bolhas de privilégios e hoje possuem "staffs" para que só pensem em jogar, sem nenhuma conexão com a vida real.

Casemiro prometeu na sexta para terça, mas no domingo Rogério Caboclo foi afastado da presidência da CBF. Agora está bem claro que o dirigente era o problema, não exatamente jogar uma competição com logística a toque de caixa e que era responsabilidade de Argentina, Colômbia e Conmebol. Trazendo nove delegações para um país com circulação descontrolada do vírus e suas novas variantes.

O resultado final foi o discurso vazio de Marquinhos na entrevista depois do jogo, seguido do tão esperado manifesto nas redes sociais. Nada mais que uma nota muito vaga nas intenções, que começa com "Quando nasce um brasileiro, nasce um torcedor". Mas em nenhum momento cita os centenas de milhares de brasileiros que perderam a vida para o virus. Para o descaso com a compra de vacinas. Para a mesma indiferença dos que só se importam com os próprios interesses.

Ninguém é obrigado a se posicionar publicamente sobre qualquer questão, embora no Brasil da pandemia seja um dever para ter o que dizer quando, daqui a 20 anos, alguém perguntar "o que você fez na época?" Nunca foi, nem deveria ser um debate político. É sobre viver ou morrer. Ou deixar morrer.

A seleção de Tite mostrou que não pode entregar nada além de futebol. Com Gabriel Jesus entrando bem pela direita, para atacar e também fechar a segunda linha do 4-4-2 que deu liberdade total a Neymar para marcar um gol e servir Lucas Paquetá, que começou no banco e entrou bem na vaga de Fred.

Era o suficiente. Mas eles ameaçaram entrar em outro campo. São contra a Copa América, mas vão disputá-la. Para "servir ao país", uma questão de "hierarquia". Discurso que soa bem para quem está no poder. Desde 1970 ou 1964. Ou desde sempre. Uma revolta de cordeiros obedientes. Totalmente desnecessária.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL