PUBLICIDADE
Topo

André Rocha

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Certo ou errado, Rogério Ceni já está condenado no Flamengo

Rogério Ceni passa instruções para Gerson no jogo entre Flamengo e LDU na Libertadores - Alexandre Vidal/Flamengo
Rogério Ceni passa instruções para Gerson no jogo entre Flamengo e LDU na Libertadores Imagem: Alexandre Vidal/Flamengo
Conteúdo exclusivo para assinantes
André Rocha

André Rocha é jornalista, carioca e colunista do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros "1981" e "É Tetra". Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Contato: anunesrocha@gmail.com

Colunista do UOL Esporte

20/05/2021 08h23

Willian Arão foi expulso aos 15 minutos de jogo no Maracanã. Jogador de quase 30 anos, há cinco no Flamengo, completando 300 jogos com a camisa rubro-negra. Entrada tresloucada, com a mesma imprudência que provocou o cartão vermelho aos 21 minutos contra o Independiente del Valle na Recopa Sul-Americana do ano passado.

Nas redes sociais, ao invés de críticas contundentes ao volante reincidente, o que se viu foi a lembrança de que, mesmo com um homem a menos, a equipe, então comandada por Jorge Jesus, vencera por 3 a 0 e agora, contra a LDU, as dificuldades foram imensas no empate por 2 a 2.

Nenhuma contextualização. Na Recopa, o Flamengo já vencia por 1 a 0 e era jogo valendo título inédito. A escalação era a melhor possível, obviamente, e o Maracanã estava lotado, com a torcida apaixonada pelo time que ganhara quase tudo no ano anterior e já vinha da conquista da Supercopa do Brasil.

Agora, estádio vazio, partida de fase de grupos da Libertadores com classificação encaminhada, torcida desconfiada e uma formação "alternativa", com apenas quatro titulares. Nada disso foi levado em consideração. Porque Rogério Ceni já está condenado por muitos rubro-negros a levar a culpa se tudo não der muito certo. E, se der, o mérito é de qualquer um, menos dele.

É claro que a opção de priorizar a final do Carioca é mais que questionável. Ainda mais no clube do vexame histórico de tratar uma partida eliminatória de Libertadores como "jogo das faixas" e festa de despedida de treinador. Sim, a "noite do Cabañas" em 2008.

Só que todos, com exceção do Santos, fizeram parecido ou igual. Mesmo o Fluminense, que escalou titulares, parecia com a cabeça no grande rival na derrota por 2 a 1 para o Junior Barranquilla, no mesmo Maracanã. Complicando a classificação e levando para o Monumental de Nuñez a decisão da vaga contra o River Plate. Se empatar e o Junior vencer o Santa Fé por dois gols de diferença, o tricolor vai parar na Sul-Americana.

Mas Ceni chega à decisão carioca mais pressionado que Roger Machado. Mesmo classificado e só precisando de um empate em casa contra o Vélez Sarsfield na última rodada para terminar em primeiro no Grupo G. Se vencer, como fez na Argentina, poderá ostentar uma das melhores campanhas.

Nada disso importa. Ceni é o responsável por qualquer pequeno susto que o torcedor rubro-negro leve. Tudo tem que funcionar perfeitamente, como não aconteceu nem com Jorge Jesus. Ou só na memória seletiva, ainda que recente.

É claro que há problemas. Alguns crônicos, como a fragilidade defensiva. São nove gols sofridos em cinco jogos nesta Libertadores. Mas o treinador não pode ser responsabilizado por erros individuais básicos, como os mais que recorrentes de posicionamento de Gustavo Henrique no jogo aéreo defensivo. De nada vale ter quase dois metros de altura se quase sempre o zagueiro está no lugar errado.

Ou Bruno Viana virando de costas para Johjan Julio, que driblou com extrema facilidade antes de fazer o segundo gol da LDU. Por mais que se trabalhe, são deficiências e decisões equivocadas dos defensores. A rigor, o Flamengo tem apenas um zagueiro confiável: Rodrigo Caio, que vem se lesionando com frequência preocupante.

Os problemas fazem Ceni apelar para improvisações. Como Léo Pereira na lateral esquerda. Sem Renê, lesionado, o treinador preferiu aumentar a estatura da defesa e deixar o jovem Ramon no banco. O contestado camisa quatro não cometeu nenhum erro comprometedor e ainda acertou uma finalização. E a entrada do lateral de ofício nem melhorou tanto a produção ofensiva.

Porque o time sofreu pela óbvia dificuldade de atuar tanto tempo em desvantagem numérica. E Arão foi expulso jogando como volante, como queriam muitos torcedores. Mas não adianta, a culpa é de Ceni.

Pedro tirou da cartola um golaço de centroavante para abrir o placar e De Arrascaeta, que entrou no segundo tempo, achou uma assistência na bola parada para redimir Gustavo Henrique no gol de empate. O Flamengo, com um a menos, terminou com 57% de posse de bola e dez finalizações, o dobro do adversário, que só acertou duas no alvo. Nas redes. Algo que, de fato, precisa ser ajustado.

Mas o fato de Domènec Torrent também ter sofrido com a defesa muito vazada e até Jorge Jesus ter enfrentado alguma dificuldade em 2020 sem Pablo Marí deveria gerar algum questionamento sobre a qualidade dos zagueiros, dois deles contratados a pedido do técnico português. Sem contar a sensível diferença entre Rafinha e Isla em todos os aspectos, inclusive defensivos.

Nada disso é levado em conta. É claro que Ceni tem responsabilidade, inclusive pela mentira contada logo nos primeiros dias de trabalho, que a proposta de jogo no Fortaleza era a mesma do Fla de Jorge Jesus. Não era, e isso também justificava os bons números defensivos do time cearense na época, outra razão para a contratação do treinador.

Mas a má vontade é clara e as críticas desproporcionais, mesmo quando são justas. Tanta pressão das redes sociais, o único termômetro possível com arquibancadas vazias, já deve ter abalado o respaldo da direção. Uma derrota no Fla-Flu, ainda que nos pênaltis, pode fazer o técnico balançar no cargo.

E mesmo que vença e fature o terceiro título em menos de um ano no comando técnico, Rogério Ceni será contestado. Não tem mais volta. Este que escreve não comunga com perseguições e injustiças, nem faz questão de ter razão. Por isso, mesmo sem apreciar a figura pública e ainda achando o treinador "verde" para a missão de comandar o melhor time do país, se recusa a fazer eco para a covardia.

Até porque o Brasil prova todo dia o gosto amargo de ter seguido o efeito manada na base do ódio. Nunca termina bem.

(Estatísticas: SofaScore)

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL