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André Rocha

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Tricampeão, Guardiola mudou a Premier League como um gênio aprendiz

Guardiola festeja com jogadores do City, time invicto há 21 jogos na Inglaterra - Divulgação
Guardiola festeja com jogadores do City, time invicto há 21 jogos na Inglaterra Imagem: Divulgação
André Rocha

André Rocha é jornalista, carioca e colunista do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros "1981" e "É Tetra". Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Contato: anunesrocha@gmail.com

Colunista do UOL Esporte

13/05/2021 09h27

Quando o Manchester City entrar em campo na sexta-feira, dia 14, para enfrentar o Newcastle no St. James' Park, a tradição da "guarda de honra", com os adversários recebendo o campeão antecipado com aplausos em um corredor na saída do vestiário, deve se repetir. Assim como o time de Manchester fez com o Liverpool na temporada passada.

Os atletas que venceram a liga mais competitiva do planeta e ainda faturaram a Copa da Liga Inglesa e estão na final da Liga dos Campeões merecem todas as reverências em uma temporada que já é histórica. Mas o grande comandante, a mente por trás dessa conquista mereceria uma salva maior de palmas.

Pep Guardiola ganha sua terceira liga em cinco disputadas desde a temporada 2016/17. Empilhando recordes, como o de pontos (100) e gols marcados (106) em 2017/18. Nesta temporada alcançando 21 vitórias consecutivas em todas as competições, a maior sequência construída por uma equipe inglesa.

Repete na Inglaterra o domínio que conseguiu na Espanha e na Alemanha. No Barcelona, três títulos em quatro temporadas. No Bayern de Munique conseguiu as três salvas de prata da Bundesliga de 2013 a 2016. Ou seja, são nove ligas por pontos corridos em 13 anos de carreira em times de primeira divisão. Ou 12, se considerarmos o "ano sabático" na temporada 2012/13.

Feito que parecia impossível em sua primeira temporada na Inglaterra. A única sem nenhum título, mas de enorme aprendizado. Com elenco envelhecido, sofreu com o jogo de transições e intensidade máxima. 15 pontos atrás do Chelsea de Antonio Conte, mas conseguindo ficar no "pódio" com a terceira colocação. 60,9% de média de posse de bola, 85,5% de efetividade nos passes. Mas 39 gols sofridos, média superior a um por partida. E apenas o terceiro em finalizações por jogo.

O aprendizado veio rápido, com a fantástica campanha na temporada seguinte. Líder em todas as estatísticas importantes, baixando os gols sofridos para 27. Subindo a posse para 66%, porém com mais agressividade no perde-pressiona, atenção à última linha de defesa para ceder menos espaços às costas e cuidado no jogo aéreo, ofensivo e defensivo. Domando a fúria dos adversários e sabendo a hora de acelerar também, inclusive com ataques mais diretos em muitos momentos.

Sufoco no título por um ponto sobre o Liverpool (98 a 97), mas novamente sobrando diante dos demais concorrentes - o Chelsea, terceiro colocado, terminou 26 pontos atrás do campeão. Novamente com mais posse, acertando mais passes e finalizações. Baixando os gols sofridos para 23, um a mais que os Reds.

Na temporada seguinte foi difícil segurar a fome do time de Jürgen Klopp para enfim vencer a primeira Premier League. Mesmo com a parada por conta da pandemia, o Liverpool passou o trator até confirmar o título com seis rodadas de antecedência. E ganhar a "guarda de honra" do próprio City no Etihad, mas com um 4 a 0 para lembrar que o vice-campeão, mesmo 18 pontos atrás, não era qualquer um. De novo com mais posse, acerto de passes e finalizações por partida.

Até chegar à caótica temporada 2020/21. Praticamente sem período de treinamentos, com jogos seguidos para acertar o calendário europeu. Um pesadelo para o treinador obsessivo por estudar seus adversários e preparar a equipe nos mínimos detalhes. Era preciso aproveitar cada sessão e se adaptar àquela rotina insana.

Enormes dificuldades no início, com a derrota marcante por 2 a 0 para o Tottenham de José Mourinho. Depois o City mais "camaleão" de todos. Ainda com o jogo de posição tendo a bola como referência, a vontade de controlar as ações pela posse. Mas sabendo rodar o elenco jogo a jogo e encontrar soluções, como Gundogan artilheiro da equipe com 12 gols.

Goleando o Liverpool frágil com os desfalques na defesa por 4 a 1 em Anfield jogando em rápidas transições ofensivas. Ou utilizando mais os lançamentos diretamente do goleiro Ederson, pulando etapas na construção. Foi assim no gol de Gundogan na "vingança" dos 3 a 0 sobre o Tottenham. Adversário da final da Copa da Liga, vencida com um gol de Laporte no jogo aéreo com bola parada.

Versatilidade sem abrir mão das convicções "primárias". Ainda o time com mais posse, passes certos e finalizações. Mas sabendo entregar quase sempre o que o jogo pede. Marcar em 25 metros no próprio campo ou adiantar as linhas e sufocar o adversário. Sempre buscando o controle, diminuir as aleatoriedades para vencer.

Desenvolvendo jogadores jovens como Phil Foden, mas também o veterano Fernandinho. Transformando Kevin De Bruyne no "homem livre" de um esquema sem centroavante. Alternando sistemas e propostas de acordo com a demanda. Posse ou transição, ou os dois na mesma partida.

Pragmático, buscando o mesmo que os demais: vitórias e títulos. Mas do seu jeito, ainda que essa maneira seja a soma de várias influências. Das primárias, como Johan Cruyff e Marcelo Bielsa, até as mais recentes, como o próprio Klopp e Thomas Tuchel, Julian Nagelsmann.

Errar, corrigir e acertar. Aprender e ensinar, como deve ser a vida. Segundo o jornal "The Times", desde a chegada de Guardiola o número de passes por jogo aumentou e o de rebatidas ou chutões diminuiu na Premier League.

Por isso merece os aplausos em seu 31º título na carreira. Seguramente um dos mais prazerosos, pela certeza de ter sido o melhor enfrentando todos em ida e volta. Sem as surpresas do mata-mata que põem tudo a ruir em uma noite ruim. Embora até isso ele tenha controlado na Champions que decide pela terceira vez.

Para terminar uma temporada histórica, quase perfeita. São 16 dias até a final contra o Chelsea. Até lá, mais três partidas. Além do Newcastle, Brighton e Everton. Para se preparar, mas sempre pensando em vencer. Com titulares ou reservas. Fiel a si mesmo, mas atento para seguir na vanguarda. Um dos melhores da história e quem dita as regras, adaptando-se a elas. Um gênio aprendiz.

(Estatísticas: Whoscored)

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL