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André Rocha

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Virada gigante do Flamengo! Torcedor precisa entender "cobertor curto"

Arrascaeta comemora golaço pelo Flamengo contra o Vélez Sarsfield pela Libertadores - Juan Mabromata - Pool/Getty Images
Arrascaeta comemora golaço pelo Flamengo contra o Vélez Sarsfield pela Libertadores Imagem: Juan Mabromata - Pool/Getty Images
André Rocha

André Rocha é jornalista, carioca e colunista do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros "1981" e "É Tetra". Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Contato: anunesrocha@gmail.com

Colunista do UOL Esporte

21/04/2021 08h33

Quando o sorteio da fase de grupos da Libertadores colocou no Grupo G o cabeça de chave Flamengo com Vélez Sarsfield, LDU e Unión La Calera, muitos apontaram a dificuldade da disputa, alguns até chamaram de "grupo da morte". Três campeões do torneio, mais o time chileno que no ano passado eliminou o Fluminense na Sul-Americana. De fato, fácil não é.

A tabela ainda sinalizou a estreia mais complicada possível: encarar fora de casa o Vélez. Mesmo sem torcida no Estádio José Almafitani, a missão seria duríssima. O Flamengo não vencia na Argentina pela principal competição sul-americana desde os 3 a 0 sobre o River Plate no Monumental de Nuñez em 1982.

Sofrer era previsível, mas o bicampeão brasileiro venceu. De virada! Jogando com autoridade na maior parte do tempo, terminando com 57% de posse de bola, 86% de efetividade nos passes, 13 finalizações a dez - cinco a dois no alvo. Considerando a tensão natural da estreia e o desfalque sempre sentido de Rodrigo Caio, o zagueiro mais confiável no elenco, é um feito gigante!

Não garante o primeiro lugar do grupo, nem nesta primeira rodada. Muito menos que o time será forte sempre e chegará na final do torneio. Mas precisa, sim, ser exaltado. E fazer o torcedor rubro-negro mais exigente perceber que futebol é apaixonante justamente por não ter modelo de jogo perfeito, o "cobertor" sempre é curto.

A proposta de Rogério Ceni no Flamengo é ultraofensiva. O time adianta mais as linhas do que nos tempos de Jorge Jesus. Os zagueiros pisam com mais frequência no campo adversário. A saída de bola tem um zagueiro centralizado e dois companheiros pelos lados que descem muito: Willian Arão à direita, Filipe Luís pela esquerda. Isla vai embora pela direita para dar amplitude, abrir o campo. Gerson e Diego Ribas são meias adaptados à frente da retaguarda. E ainda o quarteto ofensivo já conhecido.

Esse time vai deixar espaços, não tem jeito. O perde-pressiona nem sempre vai encaixar, até porque o adversário já vem preparado. Não há mais o fator surpresa de 2019, nem a torcida no Maracanã que ajudava a intimidar ainda mais o oponente. É o risco inerente à identidade que o clube vem construindo nos últimos anos.

É possível fazer ajustes, obviamente. Minimizar erros como a abordagem de Gustavo Henrique contra Lucero no primeiro gol de Lucas Janson. Zagueiro que atua em defesa exposta precisa se garantir mais no duelo com o atacante. Saber cercar, bloquear para retardar a finalização ou a assistência. O zagueiro se atirou no chão e facilitou o trabalho. Gerson também errou ao não acompanhar Janson.

No segundo, novo erro de bloqueio no escanteio que permitiu Gianetti, o melhor zagueiro do trio do Vélez, correr para ganhar impulsão e vencer no jogo aéreo a disputa com Gustavo Henrique, o jogador mais alto em campo. Filipe Luís errou na tática do impedimento e Janson novamente apareceu livre para ir às redes.

Mas o futebol é um esporte caótico, de erros. O Vélez se defendia num 5-4-1 e, ainda assim, deixou um buraco pela esquerda que Gerson aproveitou deixando Arão livre para empatar e depois servindo Everton Ribeiro, que perdeu gol inacreditável no final do primeiro tempo.

Por dentro, a retaguarda argentina também falhou, permitindo a jogada individual de Gabigol que terminou no pênalti convertido pelo próprio camisa nove empatando o jogo em 2 a 2. E no erro coletivo na entrada da área, os espaços generosos para De Arrascaeta dominar com liberdade total para emendar no ângulo do goleiro Lucas Hoyos. Um golaço, mas fruto de uma falha gritante. Mesmo com muita gente defendendo...

Além de Everton Ribeiro, Gabigol e Vitinho, no último ataque, também desperdiçaram chances cristalinas. Se o jogo terminasse, por exemplo, 5 a 2, a goleada seria histórica e os gols sofridos perderiam peso. Como por exemplo, e sem fazer comparações, os dois sofridos pelo Bayern de Munique no espetacular 8 a 2 no Barcelona pelas quartas da Liga dos Campeões em Lisboa.

O time bávaro, aliás, é um bom exemplo dos riscos de um modelo de jogo que tem como objetivo amassar o adversário o tempo todo. Requer concentração e uma execução precisa. Principalmente no ataque. O Flamengo ainda perde muitos gols, um problema crônico como as falhas defensivas.

Questões que passam pelo treinador, mas principalmente pelos atletas. A responsabilidade tem que ser dividida. É injusto creditar os gols marcados às individualidades e fingir não ver os equívocos dos defensores nos sofridos. Covardia jogar os méritos das grandes atuações a um suposto "modo Jorge Jesus" e atirar nas costas de Ceni a culpa dos insucessos.

O Flamengo cumpre a missão mais nobre que pode existir no futebol: joga, diverte, às vezes encanta. E sempre exige o melhor dos seus rivais. Repare que dificilmente há um jogo ruim, chato, entediante.

Depois do jogo, o "Olé" cobriu a equipe brasileira de elogios: "O Flamengo controlou a bola como a pose de campeão que o mundo conhece, e, com tantos bons jogadores, não passou tantos contratempos - inclusive, poderia ter feito até mais gols", relatou o periódico. E mais: "Quando você joga contra uma equipe que tem tanta experiência, tem que se cuidar, além de jogar. Quando à sua frente aparecem tantos monstros, de nomes conhecidos até na Europa, você tem que se cuidar. E o Vélez não soube como e não conseguiu se cuidar".

É o segundo maior time da história do clube de maior torcida do país. Que desperta respeito e até temor, depois de anos passando vergonha em competições internacionais. Estreando com vitória na Argentina. Com o veterano Diego Ribas sendo o melhor em campo, atuando como volante - justamente a melhor sacada de Ceni no comando técnico. E nas redes sociais não faltou torcedor fazendo beicinho e até dizendo que o triunfo foi ruim por dar sobrevida ao treinador.

Sim, estamos em tempos de pandemia. Ainda descontrolada no país, o que gera maiores tensões e até uma tendência à depressão em muitos casos. Estamos perdendo familiares, amigos, conhecidos. Com medo de morrer também e virar estatística. Mas será que não é possível desfrutar um pouco do futebol bem jogado?

Tudo é cíclico, no Brasil ainda mais. Quando essa fase passar, o torcedor do Flamengo pode olhar para trás e perceber que, mesmo depois de Jesus, era feliz e não sabia. Ainda dá tempo de continuar exigente, mas sem paranóia.

(Estatísticas: SofaScore)

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL