PUBLICIDADE
Topo

André Rocha

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Entrevista de Florentino Pérez sobre Superliga é uma ameaça real ao futebol

Florentino Perez, presidente do Real Madrid - A. Ware/NurPhoto via Getty Images
Florentino Perez, presidente do Real Madrid Imagem: A. Ware/NurPhoto via Getty Images
André Rocha

André Rocha é jornalista, carioca e colunista do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros "1981" e "É Tetra". Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Contato: anunesrocha@gmail.com

Colunista do UOL Esporte

20/04/2021 07h52

Florentino Pérez é um megalomaníaco. O presidente do Real Madrid que formou dois times galácticos para dominar o futebol mundial e precisou quebrar a cara duas vezes para voltar a ser vencedor na Europa: a primeira quando dispensou Makelele, contratou Beckham e destruiu coletivamente o time merengue que já sofria para abrigar todas as estrelas; a segunda ao ser atropelado pelo Barcelona de La Masia, da aposta na formação pelas divisões de base.

Só conseguiu o sonhado décimo título da Liga dos Campeões quando estabilizou o time sem a roda viva de contratações e ganhou outras três "orelhudas" com Zidane praticamente sem reforços, repetindo a escalação em duas finais seguidas e dando oportunidades aos jovens da base. Ou seja, é um dirigente meio tresloucado, mas que sabe se adaptar à realidade - sim, é claro que com os cofres sempre abarrotados fica bem mais fácil.

Por isso é preciso ouvir com atenção sempre que Florentino se pronunciar publicamente. E a entrevista que o presidente do Real Madrid, e agora da recém-criada Superliga Europeia, concedeu ao programa espanhol "El Chiringuito" não deixa de ser alarmante.

A mensagem clara é que clubes ricos como o próprio Real Madrid, Barcelona, Juventus, Liverpool, City e United não querem baixar a margem de lucro e dobram a aposta para que a bolha bilionária do futebol não estoure com a pandemia. Jogam entre eles sempre, faturam alto sem riscos, já que os "clubes fundadores" não caem, e oferecem maiores "pagamentos de solidariedade" às federações que a UEFA. Ou seja, fermentam o bolo e dão mais farelos para os pobres excluídos da competição que é só deles. Este é o plano ganancioso, em resumo.

Mas quando Florentino fala que o futebol "precisa ser mais atraente globalmente" e que "se os jovens acham os jogos de futebol muito longos, pode ser porque não são suficientemente interessantes, ou talvez tenhamos que encurtar os jogos" é para aqueles quem se importam com o jogo ficarem alertas. Logo poderemos ser tachados de "conservadores" ou "agarrados à zona de conforto".

A Superliga e a nova versão da Champions prevista para 2024/25, com 36 clubes e 225 partidas disputadas (cem a mais que no formato atual), sinalizam que o futebol do futuro (ou já do presente) é o diário na televisão. Talvez considerando o que cientistas pelo mundo falam sobre novas pandemias nos atingindo com mais frequência e tirando o público dos estádios.

Mas principalmente levando em conta o hábito do zapping e da "segunda tela" que já atinge os mais velhos e é como os jovens entendem o mundo. Acompanhar um jogo enquanto estuda ou conversa no WhatsApp. Fica sabendo da partida pela rede social e segue nela enquanto assiste. Ou só olha para a TV quando sai um gol, uma jogada diferente ou apenas no reflexo do grito do narrador - talvez por isso eles berrem cada vez mais, até em cobrança de lateral.

A UEFA aposta no "atacado". A Superliga no "personnalité", na pulseirinha vip. Ou no jovem asiático que só vai parar para ver se for um Barcelona x Manchester United. Não importando muito o campeonato e se vai classificar para algo realmente importante. Só algo para passar o tempo trancado em casa, dividindo atenção com outro produto de entretenimento. E se o jogo durar menos e for mais intenso, tiver mais gols...

Ou seja, o futebol corre um risco real da banalização e do hiperestímulo. Tem que ser todo dia e uma "experiência" interessante o tempo todo para manter ligado o ser humano disperso, viciado em emoções e ligado em "grifes". Nunca mais a expectativa por um grande jogo, nem a disputa caótica, imprevisível, repleta de erros que atinge o clímax no gol, tão raro e comemorado.

Este que escreve não é saudosista, nem adepto do "ódio ao futebol moderno". Mas confessa que ficou assustado com as palavras de Florentino. Ainda que a Superliga lá na frente represente apenas um blefe para os gigantes arrancarem mais dinheiro e tirarem poder da UEFA, o futuro do esporte que amamos é cada vez mais nebuloso. Não duvidem, a ameaça é real.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL