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André Rocha

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Só passado distante garante privilégio de times sul-americanos no Mundial

Patrick de Paula é cumprimentado por jogador do Tigres após derrota do Palmeiras no Mundial de Clubes - REUTERS/Mohammed Dabbous
Patrick de Paula é cumprimentado por jogador do Tigres após derrota do Palmeiras no Mundial de Clubes Imagem: REUTERS/Mohammed Dabbous
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André Rocha

André Rocha é jornalista, carioca e colunista do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros "1981" e "É Tetra". Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Contato: anunesrocha@gmail.com

Colunista do UOL Esporte

09/02/2021 08h39

O Bayern de Munique venceu o Al-Ahly por 2 a 0 e garantiu os 100% de aproveitamento dos campeões europeus nas semifinais do Mundial de Clubes no formato que vigora desde 2005. É também o favorito natural e absoluto para a decisão contra o Tigres.

Se confirmar em campo, o time bávaro conquistará o oitavo título consecutivo do vencedor da Liga dos Campeões da Europa. Em um total de 13. Os sul-americanos só venceram três: os dois primeiros, com São Paulo e Internacional, e em 2012, quando o Corinthians superou o Chelsea em Yokohama.

Nas últimas dez edições, cinco eliminações do campeão da Libertadores ainda na semifinal: duas para africanos (Mazembe e Raja Casablanca), duas para asiáticos (Kashima Antlers e Al Ain) e agora o Tigres, campeão da Concacaf, vencendo o Palmeiras em Doha.

A FIFA pretende mudar a fórmula do Mundial, com disputa a cada quatro anos e contando com 24 clubes. A ideia é ter oito europeus e seis sul-americanos, mas os gigantes do Velho Continente querem metade das vagas para que a competição seja viável financeira e esportivamente.

Não deixam de ter razão. Só o passado distante justifica esse privilégio para os sul-americanos. Depois da "Lei Bosman" em 1995, o domínio financeiro europeu se refletiu nas conquistas: 19 a 6, incluindo os torneios intercontinentais promovidos pela Toyota e a versão experimental da FIFA em 2000, vencida pelo Corinthians. Nas edições anteriores, considerando todos os formatos, foram 20 sul-americanos e 14 europeus.

Outra realidade. Hoje o contexto é de disputa mais parelha dos campeões da Libertadores com os vencedores nos continentes outrora renegados. A vantagem técnica, tática e física dos europeus é abissal. A Champions virou uma NBA. O Corinthians foi uma exceção, como a Argentina vencendo as estrelas americanas do basquete masculino nos Jogos Olímpicos de Atenas, em 2004.

Difícil imaginar o nível competitivo, por exemplo, do campeão da Copa Sul-Americana em um Mundial. Imagine ampliando isso para o vice desta competição. Ou outros quatro clubes qualificados via Libertadores diante dos melhores europeus ou mesmo contra africanos, asiáticos ou da Concacaf. Poderíamos ter um constrangimento na disputa que não compensaria a visibilidade.

Se houver uma reviravolta e o formato atual persistir, talvez seja hora de rever a fórmula. Talvez garantindo aos continentes que protagonizam a decisão as vagas nas semifinais da edição seguinte. Ou seja, em 2021 o sul-americano entraria nas quartas e o campeão da Concacaf uma etapa adiante.

O que os clubes brasileiros podem fazer para minimizar a distância é investir em estrutura e conhecimento. Sem provincianismos e raciocínios toscos como "somos pentacampeões do mundo, nós é que temos que ensinar". Não é acaso que Flamengo e Palmeiras tenham conseguido concretizar o domínio financeiro apenas com treinadores portugueses. Mesmo assim o Alviverde, com apenas três meses de trabalho de Abel Ferreira, acabou sucumbindo na semifinal.

Não é tarefa fácil, ainda mais com a crescente desvalorização do real. O caminho, porém, é sem volta. Ou toma um rumo mais profissional, ou a chance de passar vergonha para o planeta ver será cada vez maior.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL