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André Rocha

Sampaoli anda indefensável, mas deixou grande "herança" para Cuca no Santos

Jorge Sampaoli e Cuca se cumprimentam antes de Santos x Atlético-MG - Fernanda Luz/AGIF
Jorge Sampaoli e Cuca se cumprimentam antes de Santos x Atlético-MG Imagem: Fernanda Luz/AGIF
André Rocha

André Rocha é jornalista, carioca e colunista do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros "1981" e "É Tetra". Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Contato: anunesrocha@gmail.com

Colunista do UOL Esporte

15/01/2021 07h52

Bastou o Santos amassar o Boca Juniors na Vila Belmiro e confirmar presença na final da Libertadores para pipocar aqui e ali comparações entre o trabalho de Cuca, que sucedeu Jesualdo Ferreira, e o de Jorge Sampaoli, que comandou o time paulista na temporada 2019.

Reação natural e até inevitável, já que foram os últimos treinadores a fazer algo elogiável no clube. Jesualdo foi um erro de avaliação, movido pela "moda" de treinadores portugueses depois do sucesso de Jorge Jesus no Flamengo. Assim como Sá Pinto no Vasco, a aposta mirando apenas a nacionalidade se mostrou uma grande tolice.

Sampaoli é argentino e continuou no Brasil. Mas neste início de 2021 anda indefensável. Mesmo com semanas e semanas para treinamentos no Atlético Mineiro, o time parece estagnado. Ou até regredindo, com problema defensivo crônico no jogo aéreo e o repertório de ataque limitado a circular a bola sem objetividade, acionar os pontas e empilhar cruzamentos.

Fora de campo, o técnico segue complicando tudo. Não faz o mínimo esforço para aprender o básico da língua portuguesa, cobra contratações o tempo todo em um clube com sérias dificuldades financeiras e parece minar o ambiente do elenco com pressão constante. Ainda pode reagir e conquistar o sonhado título brasileiro, mas hoje parece algo mais distante.

O fato, porém, é que Cuca resgatou muitos conceitos do time de Sampaoli na Vila Belmiro. Até porque ambos têm Marcelo Bielsa como uma grande referência. Intensidade, pressão, vocação para o ataque.

A grande "herança", porém, foi o trabalho coletivo para que os ponteiros Marinho e Soteldo desequilibrem. Muitas vezes com os laterais Pará e Felipe Jonatan participando da construção por dentro e ajudando a fazer a bola chegar à dupla talentosa sem marcação dupla ou tripla. Movimentos típicos de ataque posicional que Cuca incorporou ao seu trabalho.

O treinador brasileiro tem o mérito de encontrar soluções para a ausência de um dos pontas, como o meio-campo reforçado com Jobson e Sandry e Lucas Braga aberto pela esquerda na ausência de Soteldo nos 4 a 1 sobre o Grêmio. Sem contar a liderança para compensar os muitos problemas financeiros e de gestão do Santos. Enfrentando impedimento para contratações e surto de Covid.

Mas nenhuma pressão. Quem cobraria uma campanha sólida neste contexto? No Brasil do resultadismo cru, não deixa de ser uma vantagem. Aqui ser "zebra" é muito mais confortável, por isso ninguém gosta de favoritismo, até porque quando recai do outro lado é usado como motivação - Cuca aproveitou os autoelogios de Renato Gaúcho para fazer seu time entrar ainda mais vibrante nas quartas do torneio continental.

Sampaoli traz a pressão toda pra si. Quer o favoritismo com elenco reforçado. E assume a bronca, até porque parece não dar muita atenção para os críticos. Carrega as convicções até a morte. Uma virtude, sem dúvida. Mas que precisa de flexibilidade e capacidade de adaptação a cenários mais complexos.

O argentino não levantou taças no Santos. Mas fez campanha de campeão no Brasileiro. Os 74 pontos garantiriam o título em quatro das 14 edições da competição desde que passou a ser disputada por pontos corridos entre 20 clubes. Só foi superado pelo Flamengo, um time de exceção, recordista com 90 pontos. Ponto fora da curva.

É bem provável que o campeão nacional de 2020 alcance pontuação parecida com a do alvinegro praiano no ano passado. Os méritos de Sampaoli são inegáveis e os elogios não foram apenas por ser estrangeiro. Seu time entregou desempenho e resultados, apesar dos tropeços e eliminações vexatórias na Copa do Brasil e na Sul-Americana.

Curiosamente, o melhor momento da equipe foi na reta final do Brasileiro, quando as chances de título ficaram mais remotas a medida que o Flamengo disparava. Com ambiente mais leve e Sampaoli menos obsessivo, o time cresceu e finalizou a campanha com os 4 a 0 sobre o time de Jorge Jesus.

Cuca pode fechar a temporada com a glória máxima na América do Sul. Ou terminar sem taças, se perder no Maracanã para o Palmeiras. Time que comandou em 2016 e ganhou o título brasileiro. Recebendo críticas por subaproveitar o elenco qualificado com excesso de pragmatismo depois de apresentar um grande futebol no primeiro turno. Quando a disputa afunilou com Flamengo e Santos, Cuca se agarrou ao resultadismo, apostou em solidez defensiva, jogadas aéreas e dependência do talento de Dudu e Gabriel Jesus para colocar a conquista no currículo.

Agora vence com momentos de espetáculo. Beneficiado pelo resgate no futebol mundial dos encaixes e perseguições individuais na marcação que baseia a transição defensiva no perde-pressiona, mas sabendo incluir elementos de outras "fontes". Cuca é inquieto e também observador. Já vinha apresentando novas ideias na passagem anterior pelo Santos e também no São Paulo.

O técnico que busca o bi da Libertadores não precisa da adesão dos que compram discursos vazios, como o de Vanderlei Luxemburgo, que gira em torno de "somos pentacampeões do mundo, não precisamos aprender com ninguém". Ou dos que preferem os clubes com técnicos brasileiros porque estes são mais acessíveis, abertos a entrevistas exclusivas e fontes jornalísticas importantes. Às vezes até amigos.

Sampaoli exagera na falta de "verniz" social, mas não pode ser crucificado por buscar o melhor para o seu time. No Brasil há essa cultura de endeusar quem se acostuma ao caos. Só é bom se vencer com time fraco. "Quero ver o Guardiola treinando um time pequeno". Ou Renato Gaúcho com a fixação nos "200 milhões" gastos pelo Flamengo. Uma distorção de valores, como se um grande chef só fosse competente se trabalhasse em uma cozinha suja e sem recursos.

E nem vale para Cuca no Santos. Justamente porque ele recebeu de Sampaoli um bom time para ajustar. Evoluiu, construiu ambiente favorável e vai buscar um inédito tetracampeonato da Libertadores para o clube. O segundo na carreira. Se conseguir será justamente exaltado. Mas sem bajulações e comparações desonestas.