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André Rocha

Racing repete "fórmula" do São Paulo: resistir e esperar o Flamengo errar

Rodrigo Caio, do Flamengo, reclama após ser expulso contra o Racing - EFE/ Antonio Lacerda POOL
Rodrigo Caio, do Flamengo, reclama após ser expulso contra o Racing Imagem: EFE/ Antonio Lacerda POOL
André Rocha

André Rocha é jornalista, carioca e colunista do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros "1981" e "É Tetra". Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Contato: anunesrocha@gmail.com

Colunista do UOL Esporte

02/12/2020 08h07

Futebol é apaixonante por ser caótico e o erro ser tão determinante quanto o acerto. Há os que vencem se impondo e os que esperam o adversário errar. É possível também se impor aproveitando as falhas do rival.

Foi o que o São Paulo fez na Copa do Brasil contra o Flamengo. Resistiu nos primeiros 45 minutos dos dois jogos, sofrendo mais na ida no Maracanã, e matou com inapeláveis 5 a 1 no agregado explorando os muitos erros rubro-negros com a eficiência da dupla Brenner-Luciano, a liderança de Daniel Alves e muita concentração defensiva.

O Racing não vive momento tão positivo, nem tem ataque tão poderoso. Mas era possível repetir a "fórmula" são-paulina, porém com mais simplicidade. O treinador Sebastián Beccacece sabia que suas ambições não podiam ser muito maiores que vencer na base do erro zero. Inclusive na decisão por pênaltis, se fosse necessário. E foi.

Porque é certo que o Flamengo vai falhar. Desperdiçando chances claras na frente e errando grotescamente atrás. Nas oitavas de final da Libertadores com o "plus" das tolas expulsões de zagueiros: Thuler no Cilindro de Avellaneda; Rodrigo Caio, alçado à condição de "salvador da pátria" e escalado desde o início, mesmo sem jogar há mais de dois meses, no Maracanã. Ambos por faltas duras em Lisandro López.

O atacante único do 5-4-1 de Beccacece, que fez uma substituição ainda no primeiro tempo, trocando Nicolás Reniero pelo jovem Carlos Alcaraz. Para explorar as costas de Filipe Luís e a lenta cobertura de Gustavo Henrique, novamente a aposta arriscada de Rogério Ceni.

O zagueiro merece um parágrafo à parte. Não para ser demonizado, até porque não é ele que se escala. Impressionante como um zagueiro sem nenhuma confiança pode ganhar oportunidades seguidas. Domènec Torrent insistiu na goleada sofrida para o Atlético Mineiro e pagou com o emprego. Rogério Ceni escalou na estreia contra o São Paulo, no Maracanã, e insistiu em outra partida decisiva.

Para passar o jogo dando broncas no defensor e sobrecarregar o companheiro de zaga sem o devido ritmo de jogo. Ceni e o Flamengo pagaram na falha de Gustavo Henrique no gol de Sigali. Cortou mal e impediu com o corpo que Diego Alves tentasse abafar a finalização.

O mais curioso foi, nos últimos minutos, quando o Racing só defendia a vantagem e o Flamengo despejava bolas na área, terminando com 36 cruzamentos, Ceni tirar o zagueiro mais alto do elenco para a entrada de Diego Ribas. Ganhou um bom cobrador de faltas e escanteios, mas sacou um dos principais cabeceadores. Difícil entender.

Assim como foi impossível compreender a manutenção de Vitinho, que desperdiçou as chances mais claras do primeiro tempo, e a saída de Arrascaeta, novamente o mais lúcido e criativo. Everton Ribeiro até foi uma substituição mais aceitável, já que o camisa sete errou muito, principalmente pela insistência de prender a bola, mesmo quando pressionado por dois ou três argentinos.

Ambos, porém, fizeram falta na decisão por pênaltis. Willian Arão, que novamente foi improvisado na zaga e empatou o jogo no final completando escanteio cobrado por Diego, executou pessimamente a sua cobrança e consagrou o goleiro Arias. O Racing converteu as cinco com cobranças perfeitas. Certamente muito treinadas por quem sabia que poderia sofrer gols, mas certamente também os faria.

Porque, a rigor, Rogério Ceni não conseguiu corrigir os muitos problemas rubro-negros. Não basta querer emular o time de Jorge Jesus adiantando Bruno Henrique para o ataque, nem falar em intensidade nas coletivas. Muito menos montar treinos no Ninho do Urubu às três da manhã. É preciso fazer boas escolhas e ter a sensibilidade, o "feeling" que falta ao treinador pouco rodado.

É claro que Domènec Torrent não tinha mais clima no vestiário para prosseguir. Mas agora está claro que os problemas vão muito além do técnico catalão. A equipe segue sofrendo gols e agora vai menos às redes. Ceni descarta os jovens da base e os mais experientes cometem erros infantis.

Faltou ao Flamengo também a compreensão da importância do jogo. Se Pedro suportava 45 minutos, como Ceni disse na coletiva pós-jogo, por que só entrou depois do gol sofrido? E será que Gabigol, com desequilíbrio muscular, corria tanto risco de sofrer uma lesão mais séria a ponto de sequer ficar no banco, ou dividir com Pedro, um tempo para cada? O artilheiro da última edição da Libertadores foi "poupado" para o confronto das quartas de final que terá o Racing contra Boca Juniors ou Internacional?

Não, este que escreve não é médico. Mas também é difícil confiar em um Departamento Médico chefiado por um profissional que convoca uma coletiva para fugir de responsabilidades e ser nada transparente para explicar mudanças profundas em seu setor que foi elogiado em 2019 e agora não entrega a mesma eficiência. Mesmo descontando a temporada atípica e as sequelas ainda pouco estudadas da Covid sobre atletas de alto rendimento.

Mais erros de um clube que perdeu o rumo no futebol com a saída de Jorge Jesus. Mas que vem empilhando equívocos há tempos. Desde o trato das famílias das vítimas do incêndio no Ninho do Urubu, passando por demissões questionáveis, a absurda discussão sobre premiação no dia da final do Mundial de Clubes. Até a pressa para a volta do futebol, depois ficando um longo tempo sem treinar até o início do Brasileiro, o lobby com o Presidente da República para a MP do mandante, que nada resolveu na prática.

Agora sofre os prejuízos financeiros de quem jogou as metas para 2020 no teto, como chegar à final da Copa do Brasil e na semifinal do torneio continental. E a ironia do destino: o rombo calculado é de 18 milhões de reais. Justamente o valor que o clube abriu mão na negociação com a Globo pela transmissão do Carioca. Não pode ser acaso.

O Flamengo erra dentro e fora do campo. Sonhou com hegemonia e esbarrou na incompetência. Agora resta uma improvável arrancada no Brasileiro. Com tempo para treinar, mas nenhuma confiança em um clima de fim de ciclo precoce e muitos problemas. O maior deles, ao menos em campo, é o vício de errar. Perder gols e entregá-los aos rivais.

São Paulo e Racing agradecem. Quem será o próximo algoz?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL