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André Rocha

Flamengo e Ceni com mais sorte que juízo em Avellaneda. Volta será dura

Lamce do duelo entre Racing e Flamengo pela Libertadores - Conmebol
Lamce do duelo entre Racing e Flamengo pela Libertadores Imagem: Conmebol
André Rocha

André Rocha é jornalista, carioca e colunista do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros "1981" e "É Tetra". Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Contato: anunesrocha@gmail.com

Colunista do UOL Esporte

25/11/2020 07h38

Perder Isla no aquecimento certamente foi um baque para Rogério Ceni. O lateral chileno era a grande opção de profundidade do Flamengo para atacar o Racing pela direita no Cilindro, em Avellaneda. Desfalque de última hora, com a escalação já anunciada, sempre é um problema enorme para qualquer plano de jogo.

Mas a opção por Renê improvisado se mostrou conservadora e cautelosa demais para enfrentar um adversário em crise dentro e fora de campo, vindo de quatro derrotas seguidas, no estádio sem torcida. Mesmo considerando a instabilidade defensiva do atual campeão brasileiro e sul-americano.

Matheuzinho já tinha dado boa resposta em um dos jogos mais complicados para o Fla nesta Libertadores: o reencontro com o Independiente Del Valle no Maracanã, pouco tempo depois dos traumáticos 5 a 0 em Quito. Partida que poderia ter dificultado até a classificação em caso de nova derrota. O lateral e a garotada deram boas respostas naquela goleada por 4 a 0, mas, com a mudança no comando técnico, parecem ter perdido espaço.

Difícil entender, até porque Ceni sabia que Sebastiàn Beccacece pretendia atacar pela direita, com Fabricio Dominguez no corredor deixado por Reniero, na variação de 5-3-2 para 3-5-2 do Racing. A resposta rubro-negra foi abrir Bruno Henrique pela esquerda num 4-2-3-1, mas sem que o atacante voltasse tanto para recompor.

Solução até interessante ofensivamente. Com espaço para acelerar, o eleito melhor da última Libertadores deu assistência para o gol de empate marcado por Gabigol e fez bela jogada individual que terminou em chute no travessão. Mas criou um enorme problema defensivo.

Porque Filipe Luís voltava de lesão, sentiu o gramado pesado pela chuva, tinha a cobertura do hesitante Leo Pereira e o auxílio de Gerson, que deixava o meio sobrecarregando Willian Arão e chegava quase sempre atrasado no deslocamento. Tudo isso estourou no gol que abriu o placar: arrancada de Dominguez driblando todo mundo e passe para Fértoli se antecipar a Renê - ele não estava lá por defender bem? - e ir às redes em falha também de Diego Alves.

O Flamengo tinha uma posse improdutiva: 61% e apenas três finalizações contra sete do Racing. Sem a opção de chegada ao fundo pela direita, e deixando espaços para as transições ofensivas. Piorou no início do segundo tempo, com o time argentino descobrindo que também poderia ser efetivo pela esquerda, atacando o setor de Renê.

Por ali, mas com vacilo de Everton Ribeiro salvo por uma falta mais que questionável assinalada por uma arbitragem desastrosa, o Racing chegou com Mena e o cruzamento para Lisandro López ir ás redes depois de longo jejum. Gol mal anulado que poderia ter mudado a partida. Sorte do Flamengo.

Nem tanto quando Thuler foi expulso, com auxílio do VAR, por entrada duríssima no mesmo Lisandro. Novamente cauteloso demais, Ceni recuou Arão para a zaga, tirou Everton Ribeiro e De Arrascaeta e colocou Diego Ribas e João Gomes. Mas se fechou em um 4-5 que abria Bruno Henrique pela direita para marcar Mena. Chamou o Racing de vez e ficou sem opções para os contragolpes, já que Vitinho, que entrara na vaga de Gabigol sem condições para 90 minutos, foi fechar os espaços pela esquerda.

Menos mal que o Racing se limitou a despejar cruzamentos (31 no total) e bolas longas (54) e foi pouco eficiente nas finalizações: das dez, apenas duas no alvo contra três rubro-negras em sete. Chamou atenção também a grande vantagem dos argentinos nos desarmes: 15 contra sete. Um time que compensou deficiências e dominou o jogo na fibra.

E se fosse Domènec Torrent a tomar todas essas decisões que pouco ajudaram a equipe carioca em uma disputa eliminatória? É claro que o técnico catalão não se ajudou desde o início e já é página virada, mas Rogério Ceni não pode ser isento de críticas porque adota o discurso que aceita ser um "dublê" de Jorge Jesus. Na prática, seu time continua sendo um enorme "Frankenstein" sem identidade.

Por isso a volta será dura no Maracanã. Mais ainda pela tola expulsão de Natan no banco de reservas. Se Rodrigo Caio não ficar pronto a tempo, a zaga pode ser formada por Gustavo Henrique e Léo Pereira. Uma temeridade. Ao menos Isla não deve ser problema e Pedro pode retornar como opção importantíssima no ataque que precisa funcionar além dos 3 a 1 sobre um Coritiba que não foi parâmetro para avaliar qualquer evolução rubro-negra.

A disputa está aberta e poderia ser pior. Flamengo e Ceni tiveram mais sorte que juízo em Avellaneda.

(Estatísticas: SofaScore)

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL