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André Rocha

Caso Diniz/São Paulo é exceção e não deve alimentar "fundamentalismos"

Fernando Diniz, durante partida entre São Paulo e Flamengo - Divulgação/São Paulo
Fernando Diniz, durante partida entre São Paulo e Flamengo Imagem: Divulgação/São Paulo
André Rocha

André Rocha é jornalista, carioca e colunista do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros "1981" e "É Tetra". Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Contato: anunesrocha@gmail.com

Colunista do UOL Esporte

20/11/2020 08h08

E Fernando Diniz cruzou a tempestade. Depois de eliminações doídas e até vexatórias, pela capacidade de investimento do São Paulo, e viver uma espécie de "Dia D" no jogo contra o Atlético-GO que virou decisão e poderia ter determinado sua demissão. Com a vitória por 3 a 0 no Morumbi, o treinador sobreviveu e agora vive momento mágico.

Sua equipe está na semifinal da Copa do Brasil, depois de eliminar o outrora favorito Flamengo por incontestáveis 5 a 1 no agregado, e é o time que menos perdeu pontos no Brasileiro, podendo abrir sete na liderança se vencer as três partidas que faltam. São seis vitórias seguidas, contando todas as competições, e 11 jogos de invencibilidade na principal competição nacional.

A saga de Diniz empolgou os "fundamentalistas" da manutenção de treinadores. Aqueles que acham que é preciso dar pelo menos um ano para qualquer profissional, em qualquer contexto, e pensar diferente disso é "alimentar o caos do futebol brasileiro". A "máquina de moer treinadores".

Calma lá! Isso não existe em profissão alguma, nem mesmo no funcionalismo público, em que processos administrativos podem tirar do cargo trabalhadores que não cumprirem metas mínimas ou o básico de seus ofícios. Ninguém pode ter essa garantia sem apresentar desempenho e resultados condizentes com as condições de trabalho e a remuneração. Senão vira "ato de fé".

O caso Diniz/São Paulo é exceção. Talvez seja único, porque no Brasil é quase impossível um treinador sem títulos no currículo ser bancado por um dirigente ex-jogador e uma liderança ainda atuando multicampeões no campo. As posturas de Raí e Daniel Alves dentro de todo esse processo são raríssimas. O "ganhou o quê?" quase sempre tem um peso devastador sobre os técnicos que ainda lutam por suas primeiras conquistas relevantes.

É claro que o fato de Fernando Diniz ter sido jogador ajuda. Ele "chupou laranja" com muita gente e isso no meio tem sua importância. Mas a visão mais humanista do treinador também é única. Sem o surrado e bizarro discurso saudosista "no meu tempo..." e o raciocínio obtuso de que os que estão em atividade hoje têm que sofrer o mesmo que os agora aposentados. A bobagem saturada de ignorância que é o "raiz x nutella".

Diniz nunca perdeu o vestiário e é adorado, ou ao menos respeitado, por garotos e veteranos. Algo fundamental para superar as agruras e oscilações, ainda mais em uma temporada atípica como a de 2020. Nunca saberemos se a imagem de um Morumbi lotado vaiando e exigindo a saída, com respaldo de boa parte da imprensa, manteria a convicção de Raí. Mas a confiança sempre existiu internamente.

Porque o São Paulo sabia o que queria em setembro de 2019, ao contratar o técnico demitido pelo Fluminense. Talvez o olhar para o passado, muito comum aos tricolores nos últimos tempos, tenha pesado novamente e viram em Diniz a possibilidade de repetir a trajetória de Telê Santana. O culto ao futebol bem jogado que vai se moldando para se tornar mais competitivo e tem o tempo como aliado.

Funcionou entre 1991 e 1994, depois de um 1990 complicado. Em 1992, a demissão iminente depois de cinco derrotas foi a tormenta antes do paraíso do bi da Libertadores e do Mundial que colocou no currículo de Telê os títulos que faltavam a um treinador que já seria lendário apenas pela seleção de 1982. Mas carregaria um asterisco para sempre.

Telê reviu conceitos. Diniz também. Antes seus times pareciam andar em círculos, com altos índices de posse de bola, mas dificuldade para traduzir em chances cristalinas e gols, além do problema crônico da defesa adiantada e exposta. O São Paulo que cresce na temporada é diferente.

Diniz cedeu e aceitou Luan para proteger melhor a retaguarda. Compensa com Daniel Alves e Igor Gomes auxiliando Tiago Volpi e os zagueiros na saída de bola. Alternando passes curtos e longos para minimizar os riscos, ainda que o treinador grite na beira do campo para que seus comandados tenham coragem e joguem como treinaram.

O São Paulo também não faz mais tanta questão da posse. Ela foi do Flamengo na soma das duas partidas pelas quartas da Copa do Brasil. A equipe de Diniz teve cuidado com o passe para não dar chances claras ao rival, como aconteceu no primeiro tempo da ida no Maracanã. Mas soube recolher suas linhas, recuar Gabriel Sara e Igor Gomes quase como laterais para negar a profundidade aos rubro-negros e marcar em trinta metros à frente da própria área.

É possível ser mais pragmático porque Diniz encontra no seu time atual algo que não teve em trabalhos anteriores na Série A: atacantes implacáveis e vivendo fase iluminada. Luciano e Brenner fazem a proposta mais reativa funcionar e descomplicam jogos, mesmo quando poucas chances são criadas.

Aí entra o respaldo. Diniz teve moral para deixar Hernanes, Vitor Bueno e Pablo no banco e botar os garotos para jogar. Mas sabedoria para posicionar Juanfran ou Tche Tche na lateral direita por conta da inconstância do jovem Igor Vinícius. Buscando o melhor para o time, sem idealismos.

Na falta de tempo para treinar, a manutenção de uma base titular ajuda. E a juventude da maioria, associada ao bom trabalho da fisiologia e do departamento médico, contribui para que haja saúde, resistência e entrosamento, enquanto os demais sofrem com as baixas constantes. Inclusive por Covid-19.

Ou seja, um cenário cheio de nuances e detalhes que fazem diferença. E que, no final, ainda pode dar em nada e seguir o mais do mesmo. Ou alguém garante que em fevereiro, se a temporada terminar sem títulos depois de chegar tão perto e, dependendo do contexto das perdas - por exemplo, derrota numa hipotética final de Copa do Brasil contra o Palmeiras -, o sucessor de Leco na presidência que terá eleição no final do ano sustentará Diniz?

Ninguém sabe, porque não há como ter certeza. De qualquer forma, o grande mérito são-paulino e que deve ser referência é a convicção do que queria quando procurou Diniz. É isso que falta muito no futebol brasileiro das contratações por ouvir falar, ou pelos resultados conquistados em realidades muito diferentes.

Se der errado, trocar não é pecado. Sem margem de evolução no campo e com problemas nas relações é inviável sustentar. Insistir pode significar o fundo do poço ou uma grande chance desperdiçada. Alguém questiona a troca de Abel Braga por Jorge Jesus no Flamengo histórico de 2019? Ou ainda há dúvidas que o Palmeiras hoje está melhor e com mais perspectivas do que esteve com Vanderlei Luxemburgo? Será que o Cruzeiro não se arrepende por ter demorado tanto para demitir Mano Menezes no ano passado? O mesmo com Felipão em 2012 no Palmeiras também rebaixado?

A análise deve ser caso a caso, sem dogmas e radicalismos. São Paulo e Fernando Diniz merecem aplausos pela redenção, mas no futebol tudo muda muito rápido e, também por isso, é tão apaixonante. Dar alguma estabilidade em meio ao caos é até necessário, mas a fé cega pode ser fatal. A realidade é bem mais cruel que nossas idealizações.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL