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André Rocha

Saída de bola sem chutão, sim! Futebol é maior que nossas pequenas certezas

Eduardo Coudet, técnico do Inter, e Domenec Torrent, técnico do Flamengo - Pedro H. Tesch/AGIF
Eduardo Coudet, técnico do Inter, e Domenec Torrent, técnico do Flamengo Imagem: Pedro H. Tesch/AGIF
André Rocha

André Rocha é jornalista, carioca e colunista do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros "1981" e "É Tetra". Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Contato: anunesrocha@gmail.com

Colunista do UOL Esporte

27/10/2020 09h29

Logo após os 2 a 2 entre Internacional e Flamengo no domingo, ouvi de um vizinho algo que já tinha lido no Twitter:

"Isla e Gustavo Henrique deviam ter dado um bico para frente. 'Bola pro mato que o jogo é de campeonato!' O time do Zico só tinha craques e dava chutão quando precisava!"

Não comentei nada na hora, mas comecei a fazer uma retrospectiva de todos os jogos que vi ou revi daquele time e das entrevistas que realizei com Júnior, Andrade, Adílio e Zico para o livro "1981", lançado em 2011 pela Maquinária Editora em parceria com Mauro Beting.

Zico, por exemplo, me revelou que aquele Flamengo sofria quando os adversários adiantavam a marcação, como o Atlético no Mineirão, Grêmio e Inter em Porto Alegre e o então Atlético-PR em Curitiba. Porque o time não conseguia sair tocando de trás e o centroavante Nunes tinha dificuldades para reter a bola no ataque.e esperar a aproximação dos companheiros.

Imediatamente lembrei do lateral Leandro pedindo a bola insistentemente para o goleiro Raul na final do Brasileiro de 1982 contra o Grêmio no antigo estádio Olímpico. Raul ou saía com Junior ou "quebrava" pra frente e o time gaúcho recuperava. Até que, irritado, o goleiro lançou a bola com força para Leandro, que dominou, limpou dois marcadores, tocou para um companheiro e depois gritou para Raul: "Tá vendo? Toca aqui que eu jogo muito!"

Com bola no chão. Nem todos têm a técnica e a habilidade de Leandro, mas sempre foi melhor sair tocando a fazer a ligação direta. É matemática: cinco passes curtos têm mais chances de serem precisos do que um muito longo, com o "alvo" tão distante. Questão de lógica.

Tudo envolve riscos. A diferença está no efeito visível. Uma saída errada perto da própria área que resulta em um gol do adversário tem maior impacto visual que vários chutões que entregam a bola muito mais vezes e por muito mais tempo e podem provocar uma goleada.

Aí entra a nossa cultura. Que sempre defendeu o privilégio do craque, aquele que corre menos e tem os companheiros para fazer o "serviço sujo". "Carregar o piano". Goleiro não sabe jogar com os pés, se soubesse virava atacante e ganharia mais dinheiro. Zagueiro tem que entregar para quem conhece.

Dogmas que foram derrubados com a evolução do jogo, incluindo a capacidade física dos atletas. Antes se corria 8 quilômetros, hoje a média em alto nível é de 15 km. O atacante ficou mais inteligente na marcação, não é mais aquele "migué", uma corridinha na direção do zagueiro para depois ficar parado esperando a bola.

Novos cenários e novas demandas exigem soluções diferentes. Hoje os treinadores têm informação. Se houver um defensor com problemas na saída de bola é certo que a marcação pressão vai induzir o passe para este "elo fraco" levar o bote. Se este der o chutão, é bola recuperada e o adversário voltando com volume sufocante.

Goleiros e zagueiros precisam saber jogar. Para gerar vantagem desde a defesa. Tocando, saindo da pressão, deixando adversários à frente da linha da bola e chegando no ataque com igualdade ou superioridade numérica. Como no gol de Pedro, primeiro do Flamengo no Beira-Rio. O centroavante girou sobre Zé Gabriel na intermediária e abriu um buraco na defesa do Inter. Porque os defensores haviam superado marcadores no próprio campo.

Pedro que empatou o jogo contra o Goiás no Maracanã. Resultado de uma bola recuperada pelo time rubro-negro depois de um tiro de meta longo cobrado pelo goleiro Tadeu. Quem notou?

Futebol é apaixonante por ser imprevisível, democrático e "cobertor curto". Não existe solução infalível, nem prática condenável sempre. Como na vida, tudo depende do contexto e também da execução da ideia.

Voltando ao Flamengo de 1981, Júnior foi criticado em muitas derrotas por atacar demais e deixar espaços às costas pela esquerda. Em sua defesa, disse que aqueles mesmos críticos não contabilizavam os gols marcados a favor com participação direta do lateral criativo, que circulava o campo todo - uma dinâmica nova na época, inspirada em Marinho Chagas e no alemão Paul Breitner.

Sim, o novo assusta. Mas não foi criado para tirar o sossego de ninguém ou porque um dia alguém acordou com a vontade de entregar gols para os rivais. Há ciência, gente séria trabalhando e estudando o jogo, no mundo todo. Calculando o custo/benefício de todos os movimentos no campo.

O Flamengo "deu" dois gols para o Internacional. Mas saindo tocando desde a defesa cansou o adversário e amassou no segundo tempo até empatar, com 72% de posse e 12 finalizações em 45 minutos. Nunca saberemos se as bolas "quebradas" entregariam o domínio do jogo ao Colorado e, consequentemente, exigiriam menos fisicamente do time gaúcho. Mas há tendências. Basta calcular.

Por isso a saída de bola será sem chutão, sim! Porque o futebol é maior, bem maior que nossas pequenas certezas. Ainda bem.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL