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André Rocha

Pelé foi à frente de seu tempo, mas é injusto medi-lo pelo futebol atual

O ex-jogador Pelé - Sandro Baebler /Hublot via Getty Images
O ex-jogador Pelé Imagem: Sandro Baebler /Hublot via Getty Images
André Rocha

André Rocha é jornalista, carioca e colunista do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros "1981" e "É Tetra". Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Contato: anunesrocha@gmail.com

Colunista do UOL Esporte

23/10/2020 08h18

"Se Pelé fosse isso tudo, teria jogado no Real Madrid".

A frase é de um colega de faculdade, muitos anos mais novo, lá no final da década de 2000. Quando o Real Madrid nem tinha vencido "La Decima" e ainda não havia completado dez anos do polêmico prêmio de melhor jogador do século pela FIFA. O eleitorado formado por jogadores e treinadores, na ativa ou aposentados, elegeu Pelé e os votos na internet consagraram Maradona.

Porque os mais jovens, atentos às novas tecnologias, preferem que no seu mundo, ou na sua bolha, os reis e rainhas sejam os que eles viram ao vivo e a cores. Em 1986, ano da consagração de Maradona na Copa do Mundo no México, as transmissões pela TV e a cobertura jornalística do futebol já eram bem mais profissionais.

É bem possível também que mais jogos do Napoli comandado em campo pelo argentino tenham sido transmitidos ao vivo para o Brasil todo do que partidas do Santos nos anos 1960/1970. Se trouxermos para os tempos de Messi e Cristiano Ronaldo, então...

Não soa justo medir Pelé pelas réguas do século 21. Descartar seus gols em amistosos que eram mais valorizados sem calendário FIFA. Nas excursões em que o Santos faturava para bancar seus craques e o gênio maior e, por isso, muitas vezes o clube deixou de lado competições oficiais, inclusive a hoje tão sonhada Libertadores.

Outros tempos, nos quais Pelé sobrava justamente porque estava à frente. Era atleta em meio a jogadores. Muitos de seus gols aconteciam nos últimos minutos das partidas porque enquanto a maioria só esperava o apito final ele estava voando. E atento aos recordes e às estatísticas, como os craques de hoje.

Em campo, também tinha exata noção dos espaços que deveriam ser explorados. A tão valorizada "zona 14", região do campo entre a intermediária ofensiva e a área adversária pelo centro, foi onde Pelé construiu seu reinado. Muitas tabelas com Coutinho no Santos nasceram ali, assim como as arrancadas em direção ao gol. Ou o passe para um ponta e a corrida para aparecer na área e finalizar. Nas costas dos volantes e encarando os zagueiros de frente. Movimentos típicos do "camisa dez" que Pelé eternizou.

Nas duas Copas do Mundo que venceu com protagonismo, ele foi beneficiado também pela dinâmica ofensiva da seleção: Zagallo e Rivelino eram ponteiros que encorpavam o meio-campo e abriam espaços pela esquerda para movimentos dos centroavantes Vavá e Tostão que deixavam justamente a "zona 14" para o craque desequilibrar.

Imaginem o que seria um jovem de 17 anos hoje fazendo seis gols a partir das quartas-de-final de uma Copa do Mundo. Sendo dois deles, contra País de Gales e o primeiro na decisão com os suecos, antológicos. Pelé voltou com mais visibilidade, mas nada que alterasse tanto a sua rotina. Nenhuma explosão midiática, muito menos superexposição em Instagram ou TikTok.

Bem, provavelmente em 2020 o garoto Pelé já teria sido descoberto por um scout aos 13 anos e ostentaria contrato com um dos gigantes bilionários da Espanha. Escolhido pela preferência no videogame.

Mas não foi assim e, por isso, é até covardia analisa-lo pelos parâmetros atuais. Pelé jogou a carreira inteira no Santos e nem por isso deixou de ser reconhecido como o melhor por seus pares e rivais. O grande encontro internacional era a Copa do Mundo. Pelé brilhou em duas e, justamente em 1962, talvez na sua melhor fase técnica e física, se lesionou. Mas teve tempo para colocar o Benfica de Eusébio no bolso em Lisboa e não permitir que esquecessem dele.

Nos 80 anos do melhor e maior de todos os tempos é preciso ser justo na reverência de seus feitos dentro do contexto da época. Sem a idolatria desmedida ou o ódio implacável das redes sociais. Sem a fome de destruição de mitos e o desdém da geração que acha que o mundo começou com a internet.

Nos anos 1960, a Liga dos Campeões era Copa e nem tinha esse poder de sedução. É possível que Messi também desdenhasse e fizesse carreira no Newell's Old Boys. Poderia ter sido mais feliz e identificado com seu povo. Quem vai saber?

Pelé sabia tudo e foi além. Por isso merece ser lembrado sempre, não só nas efemérides.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL