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André Rocha

Sampaoli precisa de um artilheiro no Galo. Mano tinha Gilberto no banco

Jogadores do Bahia comemoram gol contra o Atlético-MG - Jhony Pinho/AGIF
Jogadores do Bahia comemoram gol contra o Atlético-MG Imagem: Jhony Pinho/AGIF
André Rocha

André Rocha é jornalista, carioca e colunista do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros "1981" e "É Tetra". Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Contato: anunesrocha@gmail.com

Colunista do UOL Esporte

19/10/2020 22h54

Futebol é espetacular porque qualquer proposta e estratégia que se escolha sempre deixará um fio solto, o cobertor curto. As maiores surpresas, com o mais fraco superando o poderoso, costumam vir justamente dos erros de um e das virtudes do outro.

Em Pituaçu, o primeiro tempo do Atlético Mineiro foi quase perfeito na execução do jogo de posição de Jorge Sampaoli: intensidade no perde-pressiona, organizado para atacar com Guga e Guilherme Arana jogando por dentro com Jair; Alan Franco e Nathan se juntando a Sasha por dentro e os pontas Savarino e Keno abrindo o campo, mas também buscando as infiltrações em diagonal.

Com o "plus" da correção dos zagueiros nos passes empurrando o adversário ainda mais para trás. Especialmente de Réver, muito consciente e preciso. Achando um passe para Savarino por dentro e depois servindo o venezuelano no gol único do primeiro tempo.

O Bahia? Mesmo em casa, se fechou e também foi empurrado para trás. Mas sem nenhuma organização, parecia uma retranca dos anos 1980. Um amontoado de jogadores à frente da própria área e nenhum plano de transição ofensiva. Trocando os marcadores dos ponteiros, especialmente Keno. Ora Ernando, ora Gregore, ora Edson. Sem muito sucesso.

Com os ponteiros Fessin e Clayson muito recuados, quase como laterais, em vários momentos a "referência" para o contragolpe era o veterano meio-campista Elias. Na saída de bola, seguidas ligações diretas entregando a bola à equipe visitante que só errou por não transformar em goleada ou vantagem confortável no placar um domínio de 69% de posse, 11 finalizações contra duas. Mas apenas um par delas no alvo. Nenhuma do time de Mano Menezes.

Roteiro que seguiu no início do segundo tempo, com Keno e Savarino desperdiçando chances claras. No total foram 20 conclusões atleticanas, mas apenas quatro na direção da meta de Douglas Friedrich. Para uma proposta ofensiva, de muita pressão no campo de ataque, linhas adiantadas e riscos que aumentam com o desgaste da própria equipe, é preciso transformar as chances em gols.

Por isso Sampaoli clama tanto por um goleador. Como o Flamengo tem em Pedro, Bruno Henrique e Gabigol e o Internacional conta com o iluminado Thiago Galhardo, artilheiro da competição com 14 gols. Com dois hat-tricks seguidos, Keno deu a impressão de que poderia ser o "Galhardo" do Atlético, mas...

Já o Bahia contava com um no banco. Nada espetacular, nem vivendo o melhor momento. Gilberto, porém, é um nove que contribui com gols, mas também capacidade de reter a bola na frente e alguma velocidade para aproveitar os espaços às costas da defesa adversária. Assim foi implacável nos 3 a 0 sobre o Flamengo de Jorge Jesus em 2019, com três gols.

Agora virou o jogo do avesso ao entrar na volta do intervalo. Junto com Marco Antonio, que entrou pela esquerda e o Bahia ganhou referências para os contragolpes. E depois Daniel foi o meia de aproximação que Elias não conseguiu ser nos primeiros 45 minutos.

O Galo cansou, perdeu confiança e começou a desmoronar com o empate, no gol de Daniel. A virada na falha grotesca de Guga ao atrasar fraco a bola para o goleiro Everson. Gilberto não perdoou. Nem a saída na velocidade em bloco com passe deixando o camisa nove livre e em condição legal, sem impedimento.

3 a 1 que parecia inacreditável no intervalo. Mano Menezes, suspenso e representado pelo auxiliar James Fretas, teve o mérito de consertar as escolhas infelizes do primeiro tempo, em peças, estratégia e organização. Mas só sobreviveu e teve tempo e força para a virada porque o Galo foi "arame liso". Não tem um especialista em colocar a bola nas redes. Keno finalizou sete vezes, duas no alvo. Nenhum gol.

O Bahia tinha Gilberto. Três conclusões, todas no alvo. Dois gols. Foi a diferença que faz Mano Menezes respirar e Jorge Sampaoli se desesperar ainda mais com seu time perdendo a chance de voltar à liderança. Assim vai valer pouco ou nada a vantagem de se dedicar apenas ao Brasileiro.

Porque o futebol é caótico, mas tem seu quinhão de lógica e continua sendo um jogo de colocar a bola na casinha.

(Estatísticas: SofaScore)

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL