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Zico, Thiago Neves e o que significa ser ídolo

Thiago Neves durante treino do Grêmio na Arena - Lucas Uebel/Grêmio FBPA
Thiago Neves durante treino do Grêmio na Arena Imagem: Lucas Uebel/Grêmio FBPA
André Rocha

André Rocha é jornalista, carioca e colunista do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros ?1981? e ?É Tetra?. Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Contato: anunesrocha@gmail.com

Colunista do UOL Esporte

15/09/2020 10h26

Em 16 de fevereiro de 1986, a temporada no Rio de Janeiro em tempos de valorização dos estaduais começava com um Fla-Flu. No bagunçado calendário brasileiro, era o segundo Carioca seguido, já que o Brasileiro de 1985 havia sido disputado no primeiro semestre e o de 1986 aconteceria no segundo semestre - e entraria por 1987 escancarando a total desorganização do futebol nacional.

O clássico, então, carregava ainda mais simbolismos. Era a primeira partida oficial do tricampeão Fluminense contra o Flamengo que, enfim, conseguia reunir Zico e Sócrates no Maracanã. Ambos com sérias lesões que inviabilizaram a reunião dos craques repatriados da Itália em 1985. O "Doutor" estrearia justamente num Fla-Flu, mas uma fratura na perna o tirou de combate no último treino.

Para não esvaziar o jogo em tempos de muito oba oba das emissoras de rádio e a bilheteria como a maior fonte de arrecadação, Zico foi forçado a entrar em campo pouco tempo depois da grave lesão no joelho direito em função da entrada criminosa de Márcio Nunes, lateral do Bangu. Mesmo com as infiltrações muito comuns naquela época, o craque não jogou bem. E no final do empate sem gols ecoaram os gritos de "Bichado!" nas arquibancadas tricolores. Este que escreve estava lá, aos 12 anos.

O colunista não pôde ir ao Fla-Flu de 1986 porque o pai estava viajando, mas ouviu pelo rádio que a torcida do Flu, ao Zico ser anunciado no placar eletrônico, repetiu a provocação ao ídolo máximo dos rubro-negros.

A resposta do camisa dez e capitão do Flamengo foi uma atuação espetacular, com três gols na goleada por 4 a 1. Todos comemorados com a torcida do próprio time, sem nenhuma provocação além do "Cadê o bichado agora?" registrado pelas emissoras de rádio depois do último gol.

Até hoje o Galinho diz que um de seus maiores orgulhos é ser respeitado e admirado por muitos torcedores rivais. E não causar maiores polêmicas, nem entre os rubro-negros, quando vestiu a camisa do Vasco em 1993 na despedida de Roberto Dinamite. Outro ídolo que sempre respeitou as torcidas rivais.

Outros tempos, outros comportamentos. Naquela mesma época, os jovens Renato Gaúcho e Romário já se afirmavam como ídolos com estilo provocador, mandando as torcidas rivais se calarem e estimulando polêmicas. Mas nunca tripudiando ou tratando rivais como inimigos.

Thiago Neves também provocou em um Fla-Flu, com a camisa tricolor. O do "créu", em 2008. Marcando três gols em uma goleada por 4 a 1, assim como Zico. A brincadeira, porém, foi vista como sadia pela maioria e não criou problemas para que o jogador atuasse com a camisa vermelha e preta em 2011, emprestado pelo Al Hilal.

O tempo deveria ter ajudado a amadurecer o homem. Mas, talvez imaginando que se aposentaria no Cruzeiro depois do bicampeonato da Copa do Brasil em 2017/18, ele ultrapassou todos os limites com o Atlético Mineiro. Em tempos de redes sociais e celulares para registrar tudo, o meia se expôs, até de forma infantil para um homem com mais de 30 anos, ofendendo torcida e instituição. Inclusive com piada infeliz, para dizer o mínimo, envolvendo a tragédia de Brumadinho em 2019.

Com a desculpa da "zoeira", foi aprovado por muitos cruzeirenses que só acordaram para a influência negativa de Thiago Neves até em questões internas do clube quando o rebaixamento no mesmo ano era inevitável, na carona de uma gestão financeira irresponsável.

O resultado é que a maior parte da torcida do Cruzeiro hoje rejeita o atleta e, na tentativa de se recolocar em um clube, o meia de 35 anos aceitou conversar com dirigentes do Atlético e alinhar um contrato de produtividade, a pedido do treinador Jorge Sampaoli. Memória fraca ou oportunismo?

A torcida do Galo, obviamente, reagiu de imediato e pressionou, pelas próprias redes sociais que Thiago utilizava para desmerecer o então rival, até o negócio ser desfeito. Inacreditável o clube ter aberto uma conversa com o jogador. Porque mesmo em tempos de profissionalismo, algumas questões ainda são inegociáveis. E uma ética mínima, superficial, já desaconselhava a proposta de qualquer contrato.

Porque Thiago Neves passou do ponto na visão de que futebol é entretenimento. E é, até mais do que nos tempos de Zico. Mas acima de tudo é paixão. A do torcedor por seu clube, a maior de todas. O jogador quis agradar os cruzeirenses como se não houvesse amanhã. O futuro virou presente de forma impiedosa.

Para marcar a diferença entre ídolo e palhaço. Agora deve estar bem claro.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL