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Domènec faz rodízio ou Flamengo prioriza Libertadores?

Domenec Torrent comanda o Flamengo em jogo contra o Ceará pelo Brasileirão 2020 - Kely Pereira/AGIF
Domenec Torrent comanda o Flamengo em jogo contra o Ceará pelo Brasileirão 2020 Imagem: Kely Pereira/AGIF
André Rocha

André Rocha é jornalista, carioca e colunista do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros ?1981? e ?É Tetra?. Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Contato: anunesrocha@gmail.com

Colunista do UOL Esporte

14/09/2020 09h50

Em outubro do ano passado, o Flamengo venceu o Fortaleza fora de casa por 2 a 1 de virada e consolidou o favoritismo ao título brasileiro. Naquela ocasião entrou em campo sem cinco titulares: Rafinha, Filipe Luís, Everton Ribeiro, De Arrascaeta e Bruno Henrique.

Ausências que foram alvos de protestos de Jorge Jesus na coletiva do jogo anterior - vitória por 2 a 0 sobre o Athletico-PR em Curitiba:

"Um jogador machucado é casual. Dois? Pode ser. Mas CINCO? Com fraturas? Tem que analisar o que está acontecendo, é estranho", reclamou o treinador português em uma declaração que acabou virando meme.

A preocupação de Jesus era óbvia: cinco desfalques representam meio time na linha, excluindo o goleiro. Naturalmente desfigura uma equipe. Nesta vitória sobre o Fortaleza, a ideia era poupar Rodrigo Caio, Willian Arão ou Gerson, muitos desgastados. Mas todos foram para o sacrifício pela relevância do jogo. Porque o Brasileiro era importante.

Em 2020, o Flamengo voltou à capital cearense para enfrentar o Ceará. Última partida antes da viagem ao Equador para enfrentar Independiente Del Valle e Barcelona de Guayaquil pela fase de grupos da Libertadores. Primeiro jogo na quinta-feira, 17, e segundo na terça, 22. Com descanso porque o duelo com o Goiás no Maracanã pela 11ª rodada foi adiado justamente para atender a demanda dos rubro-negros.

Domênec já tinha os desfalques dos lesionados Diego Alves, Bruno Henrique e Pedro Rocha e do suspenso Gerson. Ainda adicionou Filipe Luís e Arrascaeta, que nem viajaram por desgaste muscular, e Rodrigo Caio, que ficou no banco de reservas. Eram três ausências de jogadores considerados titulares e o treinador catalão dobrou a aposta.

O time "misto" até cumpriu um primeiro tempo razoável no Castelão. Armado num 4-2-3-1 que dava liberdade a Everton Ribeiro e apostava nos pontas Michael e Vitinho para abrir o campo e criar espaços por dentro. Assim o camisa sete acionou Gabigol, que chutou para fora à frente de Fernando Prass. A segunda grande chance desperdiçada pelo artilheiro, que cabeceou para fora um cruzamento preciso de Isla um pouco antes.

Seria o gol para dar tranquilidade e abalar a confiança do time da casa. Mas um dos poucos titulares em campo, que tantos defendem não poder participar do rodízio por ser um goleador nato, perdeu e precisa ser cobrado pelas falhas no seu ofício. Para isso recebe salário milionário e é tratado como ídolo.

Na volta do intervalo, um Ceará mais intenso e que aproveitou a estatura e o bom tempo de bola de Luiz Otávio para ganhar de Gustavo Henrique e Léo Pereira para abrir o placar logo aos quatro minutos. Aos dez, falha defensiva coletiva e Charles definiu os 2 a 0.

Apesar do elenco farto, o mais forte do país, eram ausências demais para buscar uma reação. O time precisa de um mínimo de conjunto, mesmo com entrega. E a queda do altíssimo nível é evidente com os zagueiros contratados ainda inseguros sem Rodrigo Caio e ainda Renê, Michael e Vitinho.

Se fosse um time "comum" poderia recuar e especular fora de casa, mas o campeão brasileiro e sul-americano entra quase sempre como favorito e com papel obrigatório de protagonista. O time de Guto Ferreira, que gosta de ser reativo, aproveitou as falhas e se impôs.

Um resultado que pode ser considerado natural pela instabilidade dos times no contexto da competição e do calendário. Os concorrentes Internacional, Atlético-MG, São Paulo, Palmeiras e Vasco também vêm sofrendo com o perde-ganha.

A grande questão é se Domènec Torrent pouparia Rodrigo Caio, Filipe Luís e Arrascaeta se a Libertadores não estivesse no horizonte. Porque haveria, então, uma diferença no tratamento das competições que jogaria no lixo o grande legado de Jorge Jesus: não priorizar nenhum campeonato. Esforço que permitiu o feito inédito de conquistar o título nacional por pontos corridos e o torneio continental de mata-mata.

Se a Libertadores é prioridade, então Dome mergulha na vala comum do futebol brasileiro. De Renato Gaúcho no Grêmio, de Mano Menezes no Cruzeiro de 2017 a 2019 e de Felipão no Palmeiras em 2018, para citar os exemplos mais emblemáticos. Por mais que o longo período de inatividade pela pandemia mude os parâmetros de comparação, o que se discute aqui é a mentalidade.

Jorge Jesus é passado e tem que ser mesmo página virada no Flamengo. Mas o debate sobre a importância das competições é necessário. Porque em Fortaleza o rodízio cheirou a descanso pensando na Libertadores. E três pontos que poderiam ter alçado a equipe à vice-liderança com a mesma pontuação do Internacional ficaram pelo caminho.

É para isso que o clube investiu tanto nas contratações e também na manutenção das estrelas sondadas ou mesmo assediadas por outros clubes? Vale a reflexão.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL