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Vaidade típica dos treinadores explica tragédia do Flamengo em Goiânia

Domènec Torrent, técnico do Flamengo, cumprimenta Vagner Mancini antes de partida contra o Atlético-GO no Brasileirão 2020 - Alexandre Vidal/Flamengo
Domènec Torrent, técnico do Flamengo, cumprimenta Vagner Mancini antes de partida contra o Atlético-GO no Brasileirão 2020 Imagem: Alexandre Vidal/Flamengo
André Rocha

André Rocha é jornalista, carioca e colunista do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros ?1981? e ?É Tetra?. Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Contato: anunesrocha@gmail.com

Colunista do UOL Esporte

12/08/2020 22h44

Em conversa informal com este que escreve, um treinador admitiu que certa vez ficou feliz pela estreia com derrota do time que havia acabado de assumir, porque teria mais liberdade para colocar suas ideias, sem tanta resistência dos jogadores e da torcida.

Técnicos são vaidosos. A grande maioria é capaz de colocar a vaidade acima das próprias convicções. É preciso imprimir a assinatura, independentemente de qualquer fator. Sejam as características dos jogadores, seja o pouco tempo para treinar. Legado do antecessor? Precisa ser destruído o mais rápido possível, para que seja esquecido e o atual comandante reine absoluto.

Isso explica a tragédia do Flamengo em Goiânia. Sem desmerecer o Atlético de Vagner Mancini, organizado em um 4-1-4-1 e forte pela esquerda, com Nicolas, Jorginho e Gustavo Ferrareis, os dois últimos autores de golaços. Sem contar as fantásticas defesas do goleiro Jean na reação do time visitante na segunda etapa.

Mas o primeiro tempo foi chocante pela tentativa de transformação forçada do modelo de jogo da equipe campeão brasileira e sul-americana depois do revés diante do Atlético Mineiro na estreia do Brasileiro. Nem tanto pela improvisação de Rodrigo Caio na lateral-direita, compreensível pelos problemas físicos de Rafinha, que voltou no intervalo e continua sem uma reposição confiável. Mas pela imposição de um 4-3-3 estático, com Everton Ribeiro por dentro, Vitinho e Bruno Henrique muito abertos para darem amplitude em um rascunho de jogo de posição, deixando Gabigol sozinho no centro do ataque.

Time sem mobilidade, aberto e com pouca intensidade para pressionar depois da perda e acelerar a transição defensiva. Parecia também abalado pelas mudanças, pasmo diante da audácia de Domènec, que em três dias acreditou que faria os seus novos comandados entenderem e colocarem em prática um estilo complexo, que um dia Pep Guardiola chegou a chamar de "idioma".

O resultado só não foi mais catastrófico porque Ferrareis estava por centímetros impedido no momento do passe que resultaria no terceiro gol ainda no primeiro tempo. Permitiu um ensaio de reação na volta do intervalo. Com Pedro na vaga de Vitinho consolidando o retorno ao 4-4-2 dos últimos minutos do primeiro tempo.

Mas aí entrou em campo outro problema grave do Flamengo desde as finais do Carioca: a clara falta de sintonia de Gabigol. Antes sem torcida, agora também sem Jorge Jesus. É até compreensível esse "luto", mas a estrela do time, com salário acima de um milhão de reais, precisa encontrar forças para reagir. Só consagrou Jean em duas grandes defesas.

Poderia ter virado 2 a 2, mas fechou em 3 a 0, com o golaço de Ferrareis em chute de longe. De Arrascaeta já estava em campo, no lugar de Everton Ribeiro, que saiu balançando negativamente a cabeça. Para piorar, a tola expulsão de Diego Alves por agressão.

O ato final de uma noite mágica para o Atlético de volta à Série A, vindo de uma inatividade de cinco meses. E uma dura lição para Domè, que com jogos a cada três dias e o provável retorno da Libertadores já se aproximando, precisa encontrar um meio termo entre suas convicções e o que o time já produziu de bom.

Sem radicalismo, nem esse excesso de "amor próprio" típico dos treinadores. Ou o futuro será muito duvidoso.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL