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André Rocha

Em SP, mais uma triste versão brasileira de "final não se joga, se ganha"

Marcos Rocha tenta escapar da marcação de Éderson durante Corinthians x Palmeiras, na primeira final do Paulistão 2020 - Cesar Greco/SE Palmeiras
Marcos Rocha tenta escapar da marcação de Éderson durante Corinthians x Palmeiras, na primeira final do Paulistão 2020 Imagem: Cesar Greco/SE Palmeiras
André Rocha

André Rocha é jornalista, carioca e colunista do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros "1981" e "É Tetra". Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Contato: anunesrocha@gmail.com

Colunista do UOL Esporte

06/08/2020 08h58

Havia muito em jogo no estádio do Corinthians, em Itaquera. Não exatamente por conta da final do Paulista, mas pela história do dérbi.

Mais do que manter a hegemonia no estadual com um possível tetracampeonato, o Corinthians quer preservar o domínio recente em clássicos decisivos. Já o Palmeiras anseia satisfazer o torcedor inconformado com os reveses, mesmo com um elenco mais qualificado. Tirar a imagem de "pipoca" em finais e vingar 2018.

Na decisão em dois jogos é natural administrar o primeiro para entrar vivo no segundo, com a taça à espera no estádio. Em qualquer lugar do mundo é difícil termos grandes espetáculos em finais. E a longa inatividade por conta da pandemia ainda pesa e precisa relativizar o desempenho das equipes.

Mas nada justifica a indigência dos primeiros 90 minutos na Arena Corinthians. Principalmente do segundo tempo. Tiago Nunes preferiu exaltar a solidez defensiva de sua equipe, Vanderlei Luxemburgo bateu na tecla da cautela no primeiro jogo. Porém é difícil explicar, mesmo considerando a tensão, os erros técnicos, a dificuldade de sair da pressão adversária trocando passes.

Zé Rafael entrou pela esquerda para acompanhar Fagner, a válvula de escape corintiana. Mas atacou pouco com Rony pela direita, para cima de Carlos Augusto, Duas boas defesas de Weverton em chutes de Ramiro e Mateus Vital, Ramires chutou por cima no final do primeiro tempo. E só.

Pode soar injusta a projeção de fracasso dos rivais paulistas no Brasileiro pelo futebol pobre na decisão local. Até porque o Flamengo de Jorge Jesus, dominante no país, esteve longe de exibir o seu melhor nas finais do Carioca diante do Fluminense. A crítica, porém, é necessária.

Porque vimos em São Paulo mais uma triste versão brasileira da frase "final não se joga, se ganha". Afirmação que carrega o pragmatismo da necessidade de se coroar um trabalho bem feito, mesmo sem uma grande exibição no duelo derradeiro. Releva-se o nervosismo, é possível aceitar o jogo um pouco abaixo se conseguir levantar o troféu. Aconteceu, por exemplo, com o Liverpool diante do Tottenham no Wanda Metropolitano pela última final da Liga dos Campeões e também com o Flamengo em Lima contra o River Plate decidindo a Libertadores.

Mas por aqui, na maioria das vezes, a frase é lida como licença para chutões, truculência, pressão excessiva na arbitragem, a infeliz disputa de quem é mais "macho" nas enfadonhas brigas que nada acrescentam. A velha confusão entre risco zero e nenhum futebol. Um jogo lento, previsível e violento à espera da falha do oponente. De uma bolinha parada salvadora. Do acaso. E o torcedor mais fanático acha bonito esse sofrimento, esse transe torturante como prova de paixão.

O vencedor leva a taça com alívio, quem perde chora a frustração. E não sobra quase nada. Apenas os memes nas redes sociais. Quem zoará o rival no sábado? Fica a esperança de que Corinthians e Palmeiras lembrem-se de jogar um pouco na final, para que o triunfo carregue algum sabor além do ódio no canto da boca. Oremos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL