PUBLICIDADE
Topo

André Rocha

Jogo de posição do Galo de Sampaoli é promissor, mas precisa de ajustes

Nathan, meia-atacante do Atlético-MG, celebra gol pelo Campeonato Mineiro - Divulgação/Mineirão
Nathan, meia-atacante do Atlético-MG, celebra gol pelo Campeonato Mineiro Imagem: Divulgação/Mineirão
André Rocha

André Rocha é jornalista, carioca e colunista do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros "1981" e "É Tetra". Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Contato: anunesrocha@gmail.com

Colunista do UOL Esporte

03/08/2020 08h46

O jogo de posição, ou localização, voltou a ser tema de debates no futebol brasileiro com a contratação de Domènec Torrent, ex-auxiliar de Pep Guardiola, pelo Flamengo para suceder Jorge Jesus. Mas a proposta está por aqui desde o ano passado, no Santos com Jorge Sampaoli - "discípulo" de Marcelo Bielsa, outra referência de Guardiola. E ganha eco nas ações de ataque do Athletico Paranaense de Dorival Júnior.

Agora no Atlético Mineiro, Sampaoli trabalha para colocar suas ideias em prática. A parada pela pandemia prejudicou o treinador que tinha acabado de chegar. Mas deu tempo do clube buscar as contratações para encaixar as peças nas funções definidas pelo modelo de jogo.

Como os laterais trabalhando por dentro. Guga e Guilherme Arana já estavam no clube. Fábio Santos é o veterano utilizado por Sampaoli mais como um lateral base, ou fixo atrás. Mariano, com 34 anos, chega do Galatasaray para ser outra opção pela direita, além de Maílton, na proposta de ter um elenco forte para disputar o Brasileiro com mais chances contra o "carro-chefe" Flamengo.

Os laterais atuam mais centralizados na proposta de distribuir racionalmente os espaços no campo. Se os pontas Savarino e Keno, com Otero e o jovem Marquinhos como reposições, ficam bem abertos e a ordem para os meias Nathan e Hyoran é buscar os espaços entre defesa e meio-campo do adversário para se aproximarem de Marrony, a referência móvel na frente, os laterais precisam preencher as brechas nas intermediárias. Até para não "trombarem" com os pontas nos corredores.

Esses movimentos de Guga e Arana também auxiliam o volante Allan, que recua para fazer a saída de três, ou "lavolpiana", com Réver e Júnior Alonso, este o zagueiro paraguaio indicado pelo técnico argentino por ser mais rápido na recuperação e nas coberturas. Uma necessidade na proposta de ser protagonista. Se Allan sai para preencher o meio-campo, um dos laterais, mais Guga que Arana, recua para continuar formando o trio à frente do goleiro Rafael.

Nos 2 a 1 sobre o América pela ida da semifinal do Mineiro, Sampaoli optou por Jair no meio-campo, deixando Hyoran no banco. O setor ficou mais preenchido e Nathan ganhou ainda mais liberdade para se juntar a Marrony. Jair e Nathan foram os autores dos gols que construíram o placar de um primeiro tempo com domínio absoluto, chegando a 98% de posse de bola.

Volume, pressão pós-perda e jogadas pelos flancos, especialmente com Keno à esquerda e outras oportunidades além dos gols. Acima de tudo, a impressão de que o "rascunho" vai ganhando forma e os jogadores estão assimilando os novos conceitos, ainda que a resposta seja menos rápida que no Santos - natural, pelo contexto da pandemia e do elenco renovado.

Normal também que a equipe precise de ajustes. O problema inicial de ser "torto" pela direita com a insistência dos passes buscando Savarino parece ter sido resolvido com a chegada de Keno e mais personalidade de Marquinhos quando entra. Mas no segundo tempo o Atlético tem reduzido a intensidade e perdido o controle do jogo. A proposta exige concentração e vigor durante 90 minutos ou o mais próximo disso.

Se vacila, o time fica espaçado e expõe demais os zagueiros - eis o "cobertor curto" do jogo de posição. A reação do América comandado por Lisca no Mineirão se deu justamente quando encontrou espaços para sair da pressão e chegar com mais jogadores no ataque. Assim saiu o gol de Ademir e os visitantes criaram outras chances nos primeiros quinze minutos do segundo tempo.

Nem a presença de Jair, teoricamente mais participativo sem bola, tornou a equipe mais sólida. A prova de que o problema é coletivo e não de características dos jogadores. Por isso a melhora com a entrada de Hyoran na parte final, renovando o gás e ajudando Nathan na articulação. As cinco substituições têm ajudado Sampaoli a correr menos riscos. A equipe retomou o domínio com as mudanças.

Só que outro problema novamente se fez presente: a pouca contundência do ataque. Ou não condizente com o volume de jogo. Porque Nathan até entrega gols, já são três no mesmo número de partidas. Mas Savarino, Marrony e Keno não são tão eficientes nas finalizações. O jovem contratado ao Vasco, aliás, perdeu gol feito no segundo tempo. No Santos, Marinho, Sasha, Soteldo e até Jean Mota tinham mais "punch" para refletir a superioridade no placar.

Não por acaso, a diretoria procura um bom finalizador, mas a resposta do mercado é a mesma desde sempre: "gol sai caro". E as contratações já foram muitas para um período de crise no país, moeda enfraquecida e clube sem contas equilibradas. Por enquanto, Sampaoli vai trabalhar com o que tem e tentar melhorar o aproveitamento na frente.

A saída de bola também precisa de uma sintonia mais fina e Réver parece destoar, errando passes e apelando para ligações diretas quando pressionado. Contra equipes mais fortes e que adiantam a marcação tende a ser um problema grave. Allan não pode ser o "descomplicador" durante todo o tempo.

Para o Mineiro parece o suficiente e o Atlético é favorito destacado para a volta contra o América no Independência e a provável final contra Tombense ou Caldense. Mas a missão de brigar por título no Brasileiro ainda demanda muito trabalho. O Galo do jogo de posição é promissor. O caminho, porém, parece longo e tortuoso para o objetivo final de encerrar um jejum de quase meio século.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL