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Aubameyang é mais um craque subestimado, não só pelo fator Messi/CR7

Pierre-Emerick Aubameyang, do Arsenal, comemora após marcar o segundo gol do time na partida contra o Chelsea, no Estádio de Wembley, em Londres - Catherine Ivill/Reuters
Pierre-Emerick Aubameyang, do Arsenal, comemora após marcar o segundo gol do time na partida contra o Chelsea, no Estádio de Wembley, em Londres Imagem: Catherine Ivill/Reuters
André Rocha

André Rocha é jornalista, carioca e colunista do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros ?1981? e ?É Tetra?. Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Contato: anunesrocha@gmail.com

Colunista do UOL Esporte

02/08/2020 10h02

O Arsenal conquistou a Copa da Inglaterra ao vencer de virada o rival londrino Chelsea em Wembley. 14ª conquista que teve protagonismo de Pierre-Emerick Aubameyang. Sofreu e converteu o pênalti no gol de empate e definiu os 2 a 1 com gol antológico, driblando Zouma e tocando por cima de Caballero.

Aubameyang é gabonês nascido na França e faz parte de uma família de jogadores: filho de Pierre, irmão de Willy e Catilina. Jogou pelo sub-21 da França, chegou a ser convidado para jogar pela Itália e tem nacionalidade espanhola, mas escolheu representar o Gabão.

História tão surreal quanto seu futebol. Atacante técnico, habilidoso, rápido e goleador. Sem muitos títulos na carreira, apenas copas nacionais com Saint-Ètienne, Borussia Dortmund e agora com os Gunners. Mas artilharias na Bundesliga - 31 gols em 2016/17 - e Premier League: fez 22 gols em 2018/19, depois de marcar 10 em 13 jogos na temporada anterior, após a transferência na janela de inverno europeu.

Um craque que demorou para amadurecer. Mas ainda um craque. Palavra que na visão de muitos que se deixam levar pelo saudosismo foi banalizada. Para outros, o sarrafo ficou tão alto na última década com a excelência de Messi e Cristiano Ronaldo que para ter o talento reconhecido é preciso atingir patamares quase inalcançáveis.

Há, porém, uma mudança pouco notada: no olhar para o jogo. O volume e a velocidade das informações roubaram parte da capacidade de contemplar ou se encantar. Os dois gênios citados talvez sejam as exceções. E no caso da análise parece claro que ela ficou um pouco mais embrutecida.

Este que escreve já assistiu a jogos com colegas jornalistas, analistas de desempenho, treinadores e jogadores, em atividade ou não. Mais de 80% deles no golaço de Aubameyang que valeu taça procurariam a falha do Chelsea. Seja na construção da jogada, na abordagem de Zouma ou na saída de gol de Caballero. No máximo um "golaço" na emoção ou surpresa pelo desfecho do lance. Mas em seguida o olho já escanearia a jogada procurando o erro.

Como se o jogo não fosse de equívocos e enganos induzidos por quem tem a bola. Como se o encantamento fosse um traço de ingenuidade. Ou, por conta da transmissão de vários jogos, a exaltação de hoje pudesse ser a armadilha de amanhã no caso do elogiado atuar mal na partida seguinte.

Nos anos 1980, a Rede Globo eventualmente incluía jogos internacionais na programação sem necessariamente ter um brasileiro envolvido. Algumas finais de Copa da Inglaterra foram transmitidas. Um gol como o de Aubameyang naquela época seria reprisado por uma semana, provavelmente o atacante ganharia uma reportagem especial e talvez até aparecesse na capa do "Jornal dos Sports" como alvo do Flamengo. O golaço seria curtido e reverenciado por sua beleza.

Agora a dificuldade para simplesmente apreciar é imensa. E muitas vezes deixamos passar uma legião de craques que seriam lendas em épocas passadas. Kevin De Bruyne, Toni Kroos, Luka Modric, Robert Lewandowski, Paulo Dybala, Chirstian Eriksen, Dries Mertens, Paul Pogba, Thomas Muller, Mo Salah, Karim Benzema, Kylian Mbappé, Eden Hazard, Joshua Kimmich, James Rodríguez, Antoine Griezmann, Sergio Ramos, Virgil Van Dijk, Harry Kane, Bruno Fernandes, Marcus Rashford, Alexander-Arnold, Marcelo e tantos outros. Sem contar Neymar, em uma espécie de "limbo" entre esses e o pedestal do argentino e do português.

Todos sujeitos a oscilações que antes passavam batidas por não testemunharmos duas vezes por semana. Com um nível de exigência que chega a ser cruel. E seletivo, claro. Se eu gosto vira subestimado e, caso não aprecie, o atleta é superestimado. E neste caso o colunista se inclui, basta olhar o título do texto. Uma temporada de desempenho fantástico é jogada no lixo se não vier acompanhada de títulos. E em alguns caso só convence se for a Liga dos Campeões.

Aubameyang em outros tempos talvez disputasse a Bola de Ouro ou FIFA The Best. Como George Weah, liberiano e hoje presidente do país. Mas que em 1995 venceu as principais premiações individuais no "vácuo" deixado pela volta ao Brasil de Romário, vencedor no ano anterior. Aos 29 anos, por conta de uma artilharia de Liga dos Campeões, com sete gols. Mesmo sem título do Milan.

Escolha um tanto suis generis que em tempos de redes sociais seria mais execrada que a de Modric em 2018. Na época não gerou tanta celeuma. Provavelmente porque estávamos mais preocupados em saborear um futebol bem jogado. Sem medo de chamar de craque quem merecia ser assim qualificado. Está aí uma nostalgia boa.