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Juventus eneacampeã: entre anticlímax com Sarri e a concorrência mais forte

Maurizio Sarri e Cristiano Ronaldo, da Juventus, durante amistoso contra o Tottenham - Roslan RAHMAN / AFP
Maurizio Sarri e Cristiano Ronaldo, da Juventus, durante amistoso contra o Tottenham Imagem: Roslan RAHMAN / AFP
André Rocha

André Rocha é jornalista, carioca e colunista do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros ?1981? e ?É Tetra?. Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Contato: anunesrocha@gmail.com

Colunista do UOL Esporte

27/07/2020 07h56

Foi a melhor edição da Série A da década, mas não a versão mais forte da Juventus em seu nono título consecutivo. O 36º de sua história.

Mesmo com Maurizio Sarri, o treinador de 61 anos que impactou o futebol italiano nos últimos anos pelo Napoli e, de certa forma, se provou comandando o Chelsea e sendo campeão da Liga Europa. E Cristiano Ronaldo, aos 35 anos, conseguindo entregar 31 gols e decidindo jogos ou salvando pontos preciosos numa equipe que em vários momentos dependeu das individualidades para manter a hegemonia na liga.

Um anticlímax pela expectativa gerada de aliar a qualidade do elenco com um modelo de jogo que oferecesse espetáculo sem perder a capacidade de competir. A volta da parada pela pandemia começou com a decepção da perda da Copa da Itália para o Napoli e termina com a conquista histórica, mas uma relativa perda de protagonismo.

Porque a Atalanta é o time italiano mais comentado na Europa e no mundo. A equipe de Gian Piero Gasperini marcou 96 gols em 36 jogos e é o ataque mais eficiente do Italiano nos últimos 60 anos. Ofensiva, encantadora, intrigante. Mostrou em campo sua superioridade na casa da campeã Juve e só cedeu o empate por 2 a 2 em dois pênaltis marcáveis, porém mais acidentais do que ações para evitar gols certos de uma equipe que teve problemas para criar em muitos jogos.

Além de não ser o time mais goleador, a "Vecchia Signora" também não possui a defesa menos vazada - Internazionale, com 36 gols sofridos, dois a menos que a campeã. Nem lidera posse de bola, ficando atrás do Napoli, ex-time de Sarri que também é o primeiro em efetividade nos passes (88%). Perde para a Atalanta no número de finalizações por jogo e só lidera, segundo o site Whoscored.com, nas vitórias no jogo aéreo.

Os 34 gols de Ciro Immobile também negam a artilharia do campeonato à maior estrela da Juve, embora o CR7 tenha dois jogos para fazer sua equipe jogar em função do camisa sete para tentar ultrapassar o atacante da Lazio, outro time que fortaleceu a concorrência, chegando a emendar 21 jogos de invencibilidade. Assim como a Internazionale de Antonio Conte, vice-líder e que também teve bons momentos na competição, com elenco mais recheado e a mentalidade competitiva do treinador que iniciou a série vitoriosa da Juventus.

A liga ainda ofereceu bom futebol da Roma de Dzeko e Zaniolo, além da recuperação do Milan de Stefano Pioli e do futebol interessante e que já nem é mais surpreendente do Sassuolo. O nível técnico e tático subiu e fez da Série A o campeonato nacional de alto nível mais legal de acompanhar na temporada europeia.

Mas a Juve de Sarri não deixou de ser decepcionante, para o nível de exigência de quem vem sobrando no país e quer voltar a vencer a Liga dos Campeões. Pjanic, que era esperança de um protagonismo ainda maior com um treinador que valoriza a presença de um volante "regista" que organize o time, entrou em declínio a ponto de dar uma impressão de bom negócio na saída para o Barcelona, com o brasileiro Arthur vindo para rejuvenescer o meio-campo.

A dificuldade para encaixar Higuaín e Dybala no ataque com Cristiano Ronaldo foi outra dificuldade, assim como a instabilidade defensiva com a inconstância do holandês De Ligt e os problemas nas laterais que envolvem também os brasileiros Danilo e Alex Sandro. Nenhum setor mostrou consistência ao longo da temporada e a equipe viveu muito da cultura de vitória construída nos últimos anos que intimida os rivais em momentos decisivos.

O desempenho, porém, torna tudo muito incerto na grande meta do clube. É preciso reverter em casa a vantagem do Lyon conquistada na ida e não será fácil. Muito menos o hipotético confronto com o classificado para as quartas entre Manchester City e Real Madrid. O caminho para o sonhado título europeu passa fundamentalmente por uma sensível evolução que no momento parece improvável.

Foi suficiente na Itália, mesmo com a melhora geral. Com Sarri enfim campeão da Série A, mas não exatamente como treinador e clube sonhavam. Ainda é possível a reviravolta épica em uma Champions de tiro curto e imprevisível. Mas hoje a Juventus é "zebra" no continente. Bem diferente do domínio absoluto em seu quintal.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL