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Alicia Klein

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Para Atlético-MG, piada de bebedouro é pior que violência contra a mulher

Bebedouro é arremessado em confusão no Mineirão - Reprodução
Bebedouro é arremessado em confusão no Mineirão Imagem: Reprodução

05/07/2022 15h36

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Um tuíte do colega Breiller Pires, ontem, acordou uma dor que diariamente tento apagar para habitar o universo do futebol.

A dor da irrelevância das mulheres.

Escreveu Breiller:

- Robinho, condenado por estupro: não vamos comentar.

- Cuca, condenado por violência sexual: não vamos comentar.

- Pavón, denunciado por violência sexual: não vamos comentar.

- Piada sobre novo reforço no perfil do Mineirão: vamos repudiar com uma nota oficial.

A piada em questão está ligada à contratação de Cristian Pavón, pelo Atlético-MG.

Em 2021, ainda no Boca Juniors, o argentino participou de uma briga no estádio mineiro, em que jogadores do Boca acabaram atirando um bebedouro contra os seguranças.

Na sequência do anúncio da chegada do atacante, o Mineirão tuitou: "Ai meus bebedouros", seguido de um emoji de pavão e uma carinha doida.

O Galo soltou, então, uma nota oficial de "indignação": "O perfil do estádio ultrapassou o limite do bom senso e faltou com o respeito ao jogador e à nossa instituição".

Coitado do jogador e da instituição.

Não importa que a violência tenha de fato ocorrido e rendido seis jogos de punição que impedem o atleta de disputar a Libertadores 2022.

E certamente não importam suas atitudes contra Gisela Marisol Doly.

Importam as "postagens ofensivas e desrespeitosas".

Gisela Marisol Doly acusou o atacante de, em novembro de 2019, trancá-la em um banheiro, forçá-la a fazer sexo e depois largá-la jogada no chão. Em março de 2021, ele foi denunciado pela justiça de Córdoba por "abuso sexual com acesso carnal". Ele nega. O caso ainda corre na Argentina.

Los Angeles Galaxy e Cruz Azul, que negociavam uma possível compra de seu passe, desistiram da contratação diante da acusação.

Mas não o Galo. Não o futebol brasileiro. Aqui, Cuca é ídolo. O mesmo Cuca que foi condenado por violência sexual contra uma menina de 13 anos. Aqui, Robinho só é execrado quando condenado em última instância, porque até a penúltima etapa, mesmo diante de provas, de áudios incriminadores e nojentos, até o juiz apitar o final do jogo, de alguma forma, ele ainda podia ser inocente.

Como deve ser Neymar no caso que levou a Nike a romper contrato com ele. Como deve ser Pavón.

Afinal, é sempre preferível duvidar da mulher. Ainda que uma de nós (incluindo bebês e meninas) seja estuprada a cada 7 minutos nesse país. Números oficiais de um crime profundamente subnotificado.

Deve ser tudo invenção da nossa cabeça. Melhor se ocupar de piada ruim no Twitter. Afinal, coitados dos bebedouros.