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OPINIÃO

Richarlyson é bissexual: e daí?

Richarlyson em ação pela seleção brasileira, em 2008 Imagem: Reprodução/Instagram
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Alicia Klein

24/06/2022 15h26

Tem dia em que me orgulho demais dos meus amigos e da minha profissão. Hoje é um deles.

Lançado hoje, o podcast Nos Armários dos Vestiários, apresentado por Joanna de Assis e meu amigo William De Lucca, traz uma investigação aprofundada sobre a realidade da homofobia no futebol brasileiro.

O que mais repercutiu na imprensa nas últimas horas foi uma declaração de Richarlyson. Pela primeira vez, o ex-jogador da Seleção Brasileira e hoje comentarista do Grupo Globo se declarou bissexual.

Isso importa? Seria lindo que não. Mas ainda importa muito.

Estamos em 2022 e Richarlyson passa a ser o primeiro (sim, o primeiro) integrante da elite do futebol brasileiro publicamente não-hétero.

No mundo, só há um jogador de primeira divisão abertamente gay. Unzinho, na Austrália. Na Inglaterra, Jake Daniels, jovem promessa e atleta do Blackpool, da segunda divisão, causou furor este ano ao falar de sua homossexualidade, tornando-se o primeiro inglês a fazê-lo ainda na ativa.

Juro que me causa espanto. Vou fazer quarenta anos e a homofobia no esporte que mais amo é tamanha, que praticamente nenhum profissional se sente seguro para simplesmente viver a sua vida. Porque ninguém acredita que estes dois caras sejam os únicos, né?

Infelizmente, na gravação da entrevista, Richarlyson já tinha matado o que aconteceria.

"Já namorei homem, já namorei mulher. Cara, e aí? E aí a gente vai fazer o quê? Nada. Vai pintar uma manchete: Richarlyson fala num podcast que é bissexual. Vai chover reportagem e o mais importante, que é a pauta, não vai mudar, que é a questão da homofobia. Cara, chega disso. É ridículo… Tem uma coisa mais importante, que é a questão de gente morrendo."

O Brasil está no topo dos rankings de países que mais matam pessoas LGBT e mulheres. O futebol e seu microcosmo é só o reflexo de uma conjuntura nacional, em que prevalece um ideal deturpado e limitado de masculinidade. Tudo que não for "de homem" deve ser desprezado, maltratado, abatido.

Não se enganem: isso recai de maneira mais violenta sobre nós, mas é também um peso sobre os homens hétero, amarrados a uma obrigação de existir de um jeito só. Um jeito triste, solitário, repressivo. Sob pena da mais intolerante repulsa.

Richarlyson é, novamente, um excelente exemplo. Ele nunca havia falado sobre sua sexualidade. A simples inferência fez com que um jogador tricampeão brasileiro, campeão da Libertadores e campeão mundial virasse motivo de chacota.

Pelo amor da deusa, alguém me explica por que diabos importa quem qualquer um de nós é, ama ou namora? Por que na hora de torcer por um jogador do seu time, você se importaria com qualquer coisa que não fosse o desempenho dele dentro de campo e sua dignidade como pessoa fora dele?

Escrevo isso com um misto de raiva e esperança. Raiva por saber que tantas amigas e amigos ainda precisam viver nas sombras e com medo. Esperança por ter vivido na pele um acolhimento fantástico como jornalista mulher em um ambiente ainda tão machista. Tendo cada vez mais pessoas que gostam ou não gostam do que faço pelo que faço, não por conta do meu gênero. Por fazer uma live maravilhosa do Palmeiras ontem com a Amara Moira e só receber comentários bacanas.

Tudo que a gente quer é não precisar mais falar de misoginia, LGBTfobia, racismo. Falar só de futebol. Mas, primeiro, tudo isso precisa deixar de existir.

Richarlyson está no mesmo barco. "Eu nunca falei porque não era minha prioridade, mas hoje me senti à vontade para dizer que sou bissexual. Eu queria que não existisse essa pauta e eu estivesse aqui falando da minha carreira como comentarista. Mas é importante se posicionar."

Obrigada, Richarlyson, Joanna e William por jogarem luz sobre a escuridão. O futebol precisa demais de pessoas como vocês.

Mais resenhas disponíveis lá no meu Twitter e também no Instagram.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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