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Alicia Klein

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

É preciso reconhecer que o Flamengo mudou de patamar

Rodrigo Caio lamenta derrota do Flamengo para o Atlético-MG no Brasileirão - Alessandra Torres/AGIF
Rodrigo Caio lamenta derrota do Flamengo para o Atlético-MG no Brasileirão Imagem: Alessandra Torres/AGIF
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Alicia Klein

Alicia Klein tem quase 20 anos de mercado esportivo em posições de liderança no Brasil e no exterior. Escreveu a biografia de Michael Schumacher, trabalhou na NFL, no universo olímpico e no da Copa do Mundo. Decidiu que é hora de falar sobre misoginia, racismo, trabalho infantil e tudo que o esporte aceita em nome dos resultados dentro e fora de campo.

20/06/2022 12h28

Quem me lê com alguma frequência sabe que adoro uma analogia. Não me orgulho disso, note-se.

A que não sai da minha cabeça vendo o elenco do Flamengo jogar é a do aluno inteligente que acha que não precisa estudar. O problema é sempre o professor. Ele reclama para a mãe, que vocifera com o corpo docente e troca o filho de escola. Coitado do garoto, tão talentoso, sob a tutela desse incompetente, que fica dando nota ruim sem reconhecer o geniozinho.

Mas pode trocar de professor, de escola, de cidade. O menino segue pegando recuperação. Como ele tem, de fato, muito potencial, de vez em quando ele tira uma nota boa e se safa de repetir de ano. E a mãe lembra com carinho do melhor professor que o filho já teve, que o fazia render tanto. "Tá vendo", ela comenta com os amigos, "o Joãozinho só precisa do Jorge de novo para voltar a brilhar." Ela só se esquece de que Joãozinho está com dois anos e meio de conteúdo atrasado. Enquanto os coleguinhas estão correndo atrás e deixando o Joãozinho para trás.

Ontem, depois da derrota para o Atlético-MG, Willian Arão exemplificou a falta de noção de Joãozinho: "Em 2019, estávamos dez pontos atrás do líder e saímos campeões. Campeonato é jogo a jogo. Não acaba agora."

Só que agora não é 2019. Agora, o Flamengo não está entre os três melhores do país. Se descontarmos o potencial e focarmos apenas na realidade, não está nem entre os dez. Está, isso sim, a um ponto da zona de rebaixamento.

Desde a saída do professor Jorge, o Flamengo já passou na mão de quatro outros comandantes. Ninguém bom o suficiente para fazer Joãozinho, o talentoso, brilhar.

O professor Renato não durou quatro meses no cargo. Saiu com quase 73% de aproveitamento. Mas como foi eliminado da Copa do Brasil na semifinal e não ganhou a Libertadores, tomou um pé na bunda. Com aproveitamento menor (59%), o professor Rogério foi campeão brasileiro, carioca e da Supercopa do Brasil. Não bastou. Não estava à altura de Joãozinho.

Como qualquer pessoa adulta sabe - ou deveria saber - o primeiro passo para resolver um problema é reconhecer que ele existe. É compreendê-lo. No caso do Flamengo, parece cada dia mais óbvio que ele não é um só. Não é a ausência do professor Jorge. É a ausência de liderança, organização, contratações, um departamento médico mais transparente. É a presença já não mais benéfica de alguns.

Criticar o Flamengo é chato. Chama a atenção, desperta a ira de muitos. Mas é necessário e fará bem ao rubro-negro. Todos deveríamos parar de colocá-lo na prateleira de cima na conta do talento em estado puro e das lembranças de 2019. Afinal, só existe o hoje e o hoje não é bonito na Gávea.

Reconhecer que o time mudou de patamar é fundamental para que ele possa voltar ao lugar que considera de direito. Reconhecer que não foi acidente.

Joãozinho e sua mãe precisam admitir que o problema são eles.