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Alicia Klein

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Tiros na escola, Steve Kerr e como o esporte pode ajudar a evitar tragédias

Steve Kerr, técnico do Golden State Warriors, faz desabafo após atentado em escola no Texas  - Divulgação/Golden State Warriors
Steve Kerr, técnico do Golden State Warriors, faz desabafo após atentado em escola no Texas Imagem: Divulgação/Golden State Warriors
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Alicia Klein

Alicia Klein tem quase 20 anos de mercado esportivo em posições de liderança no Brasil e no exterior. Escreveu a biografia de Michael Schumacher, trabalhou na NFL, no universo olímpico e no da Copa do Mundo. Decidiu que é hora de falar sobre misoginia, racismo, trabalho infantil e tudo que o esporte aceita em nome dos resultados dentro e fora de campo.

25/05/2022 13h26

Ontem, 19 crianças e duas professoras foram assassinadas a tiros por um homem de 18 anos portando diversas armas, em uma escola americana, no Texas. De novo. É o segundo ataque do ano. O 188º desde 1970. Cento e oitenta e oito.

É inacreditável que um país onde estes atentados se tornaram comuns siga permitindo o porte praticamente irrestrito de armas.

Demorei muito a dormir depois da rodada do futebol, e não foi pela adrenalina normal do trabalho. Foi por tentar extrair do meu cérebro a imagem de um atirador entrando na escola do meu filho. Por tentar proibir minha mente de imaginar a cena de uma sala de aula com pequenos corpos estendidos no chão. Por tentar não viver a emoção de ser uma das mães que chega para buscar a cria e descobre uma cena de crime. É inconcebível. Não consigo nem mais ler notícias sobre isso. É insuportável. E a dor é apenas imaginada, solidária.

E o que o esporte tem que ver com isso? O esporte tem plataforma. A fala de uma celebridade corre as mídias muito mais rápido do que alguém do legislativo, uma cara desconhecida. O esporte tem horas infinitas de cobertura em canais dedicados. O esporte alcança as pessoas. E só a pressão popular muda o que quem está no poder não quer mudar.

Como sabemos que as tragédias da humanidade não vão cessar de uma hora para outra, eu gostaria de ver mais deste espaço gigantesco que o esporte toma na mídia ocupado por temas que verdadeiramente importam e impactam a nossa vida. Mais jogadores, técnicos, jornalistas posicionando-se, falando o que precisa ser dito.

Miseravelmente, não faltam chacinas a impedir também no Brasil (o último massacre no Rio já contabiliza 25 vítimas).

Ontem, na entrevista que antecedeu a partida entre o seu Golden State Warriors e o Dallas Mavericks, no quarto encontro pelas finais da Conferência Oeste da NBA, o técnico Steve Kerr não quis falar de basquete. Porque, naquele momento, poucas horas antes e não muito longe dali, 21 pessoas haviam sido executadas dentro de uma escola. Dezenove crianças mortas. O basquete não importava.

Steve Kerr, tristíssimo e indignado, quis falar da razão por trás das tragédias recorrentes de seu país, com um terrível conhecimento de causa. Quando ele tinha 19 anos, seu pai, Malcolm, foi assassinado a tiros no Líbano, quando presidia a Universidade Americana de Beirute.

Não é de hoje que o esporte para guerras. Que mais personalidades se inspirem em Steve para ajudar a salvar vidas e evitar que mais gente precise chorar a morte de uma criança.

Aqui está o vídeo e abaixo, a tradução da comovente fala de Steve Kerr.

"Eu não vou falar sobre basquete.

Nada aconteceu com o nosso time nas últimas seis horas.

Vamos começar o jogo com o mesmo time hoje à noite.

Qualquer pergunta sobre basquete não importa.

Desde que viemos pra cá, depois que aconteceu o tiroteio, 14 crianças foram assassinadas a 643 quilômetros daqui...

e uma professora.

Nos últimos 10 dias, nós tivemos pessoas pretas mais velhas assassinadas em um supermercado em Buffalo.

Nós tivemos pessoas asiáticas religiosas assassinadas no sul da Califórnia.

Agora nós temos crianças assassinadas numa escola.

Quando nós iremos fazer alguma coisa???

Estou cansado disso.

Estou tão cansado de vir aqui oferecer condolências para as famílias devastadas por aí.

Estou muito cansado.

Desculpem-me.

Sinto muito.

Estou cansado de fazer tantos 'minutos de silêncio'.

Já chega!

Existem 50 senadores agora que se recusam a votar o projeto de lei HR8 - que consiste na verificação de antecendentes em todas as vendas de armas - que o Congresso deixou de lado alguns anos atrás. Foi deixado de lado há dois anos.

Tem um motivo para eles não votarem, que é manter o poder.

Eu te pergunto, Mitch McConnel, a todos vocês senadores que se recusaram a fazer algo para evitar a violência, os tiroteios em escolas, tiroteios em supermercados.

Eu pergunto a vocês: vocês vão colocar seus próprios desejos de poder acima das vidas das nossas crianças, nossos idosos e pessoas que vão à igreja?

Porque é o que parece.

É o que fazemos toda semana.

Então... estou farto. Já deu para mim.

Nós vamos jogar a partida hoje à noite.

Mas eu quero que cada pessoa aqui, cada pessoa me assistindo, que pensem nos seus próprios filhos ou netos, mães e pais, irmãs e irmãos.

Como você se sentiria se isso acontecesse com você hoje?

Nós não podemos nos acostumar com isso.

Nós não podemos ficar sentados e só ficarmos lendo sobre isso e, tipo, bom, vamos fazer 'um minuto de silêncio'.

Vai Dubs! Vamos Mavs! Vamos lá!

É isso que vamos acabar fazendo. Nós vamos jogar uma partida de basquete.

E 50 senadores em Washington nos manterão reféns.

Você sabiam que 90% dos americanos, independentemente do partido político, querem verificações de antecedentes, verificações de antecedentes universais?

90% de nós queremos.

Nós estamos sendo mantidos reféns por 50 senadores em Washington que se recusam a votar, independentemente do que nós americanos queremos.

Eles não vão votar porque eles querem manter seus poderes.

É patético!

Para mim já chega."