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Alicia Klein

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Pagamentos iguais no futebol dos EUA: equidade na marra, justa e necessária

Megan Rapinoe, uma das vozes mais ativas do movimento por equiparação salarial - REUTERS/Benoit Tessier
Megan Rapinoe, uma das vozes mais ativas do movimento por equiparação salarial Imagem: REUTERS/Benoit Tessier
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Alicia Klein

Alicia Klein tem quase 20 anos de mercado esportivo em posições de liderança no Brasil e no exterior. Escreveu a biografia de Michael Schumacher, trabalhou na NFL, no universo olímpico e no da Copa do Mundo. Decidiu que é hora de falar sobre misoginia, racismo, trabalho infantil e tudo que o esporte aceita em nome dos resultados dentro e fora de campo.

18/05/2022 16h16

Hoje, a US Soccer, equivalente à CBF dos Estados Unidos, anunciou um acordo trabalhista sem precedentes: a equiparação salarial das seleções feminina e masculina.

Além do pagamento de diárias iguais para convocações, o que já acontece em alguns lugares do mundo, como no Brasil, a premiação total passará a ser a mesma, inclusive para vitórias em torneios importantes, como a Copa do Mundo.

O mais louvável dessa conquista é a cessão de privilégios por parte dos homens. Não há equiparação, não há equidade, não há justiça sem perda de privilégios. E isso é difícil de engolir. Até para os amigos da causa.

Vejamos este exemplo real, oferecimento da federação americana de futebol. Lá, as mulheres são muito melhores que os homens. Elas são tetra e as atuais campeãs do mundo, enquanto eles nunca venceram e nem sequer se classificaram para a Copa de 2018.

Só que a premiação total do Mundial masculino da FIFA é de 450 milhões de dólares para as 32 equipes participantes, enquanto as 24 que disputam o feminino jogam por 30 milhões. Ou seja, até quem vai mal entre os homens leva mais do que as melhores entre as mulheres.

Soa familiar?

Logo, a equiparação exigia que os caras abrissem mão de uma parte da sua grana, inicialmente, para juntar todas as premiações em um só bolo, a ser dividido irmanamente com as colegas. Mas por que eles fariam isso? As negociações foram duras, conforme admitido por todas as partes.

Ao que tudo indica, houve um entendimento de que esse passo era inevitável. A seleção feminina deixou isso evidente ao entrar com um processo judicial contra a federação, que resultou em um acordo, em fevereiro deste ano, e culminou no anúncio de hoje.

Como é o caso em quase todo o esporte profissional mundial, o futebol feminino começou, de verdade, décadas depois do masculino. Esperar que essa equiparação econômica aconteça organicamente, largando anos depois e em um universo estruturalmente desigual, é uma falácia. Ou vai na marra, ou não vai.

A US Soccer também se desdobrou para oferecer o máximo possível às seleções, retendo uma fração mínima das premiações, prometendo uma divisão de receitas comerciais mais benéficas e bichos de 18 a 24 mil doletas por atleta, por vitória. Em resumo, assumiu-se um compromisso de aumentar o bolo. A sua fatia pode diminuir, mas em um futuro próximo ela vai significar mais do que a fatia maior te entregava antes.

Além de abrir um precedente importantíssimo para outros países, o caso americano é também um exemplo didático das vantagens da equidade. Quem ganha demais pode até perder no começo, mas os benefícios coletivos fazem crescer o todo, melhorando a vida de geral.

O verdadeiro valor do que está acontecendo aqui não pode ser medido em dólares. É incalculável o legado para as futuras gerações de meninas e meninos. Bons de bola, ou não.