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Alicia Klein

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Racismo em campo: Edenilson não tem nada do que se desculpar

Rafael Ramos, do Corinthians, e Edenilson, do Internacional, discutem em partida do Brasileirão - Silvio Avila/Getty Images
Rafael Ramos, do Corinthians, e Edenilson, do Internacional, discutem em partida do Brasileirão Imagem: Silvio Avila/Getty Images
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Alicia Klein

Alicia Klein tem quase 20 anos de mercado esportivo em posições de liderança no Brasil e no exterior. Escreveu a biografia de Michael Schumacher, trabalhou na NFL, no universo olímpico e no da Copa do Mundo. Decidiu que é hora de falar sobre misoginia, racismo, trabalho infantil e tudo que o esporte aceita em nome dos resultados dentro e fora de campo.

16/05/2022 15h53

Não conseguimos passar uma semana no futebol brasileiro sem um ato racista.

Ontem, a acusação veio de dentro de campo. Como todo mundo sabe, o volante Edenilson, do Internacional, acusa Rafael Ramos, do Corinthians, de tê-lo chamado de macaco. O lateral português foi solto sob fiança e segue negando a injúria racial.

O caso está sob investigação. Um perito ouvido pela Rádio Gaúcha Zero Hora corrobora a versão de Edenilson, que recebeu muito apoio ainda no gramado e depois, na mídia e redes sociais.

O que mais me partiu o coração neste episódio, para além da depressão eterna de viver em uma sociedade tão profunda e estruturalmente racista, foi a declaração de Edenilson nas suas redes.

"Boa noite pessoal. Passando aqui apenas para me pronunciar, eu sei o que ouvi. Realmente não reagi provavelmente da forma que deveria, pois foi a primeira vez que isso aconteceu comigo e me incomoda o fato de ficar chamando atenção de outra forma que não seja jogando futebol (quem me conhece sabe). Ser xingado pelo tom da minha pele, minha reação foi a de não paralisar a partida, pois o jogo estava bom e, ao mesmo tempo, eu não queria que tomasse a proporção que tomou justamente por nunca ter passado por isso."

Ele complementou: "Eu procurei o atleta para que ele assumisse e me pedisse desculpas, afinal, todos erramos e temos o direito de admitir, no meu modo de ver as coisas. Mas o mesmo continuou a dizer que eu havia entendido errado. Eu não entendi errado, o procurei pelo respeito que tenho por alguns integrantes do Corinthians e para que ele pudesse ter uma chance de se redimir, pois independente da nossa cor, o caráter falará mais alto. Enfim, peço desculpas por não estar preparado para reagir a algo desse tipo."

Em algo que infelizmente é mais regra do que exceção, a vítima sente que precisa se justificar, desculpar-se de certo modo, imaginar que podia ter feito algo diferente. Como se houvesse uma maneira correta de reagir a uma ofensa, a um crime, a algo que, como bem disse o Grafite, no Esporte Espetacular, te tira o chão. Como se alguém devesse se preparar para a perversidade.

Edenilson ouviu o que ouviu e precisou seguir jogando, porque essa é a realidade do nosso país. O racismo pode até ser identificado, registrado, denunciado, investigado, mas a realidade é que a bola continua rolando e pouca coisa acontece para coibir essa chaga.

Que este e todos os (ainda poucos) casos que chegam a ser investigados levem a um ambiente verdadeiramente antirracista. No qual não se duvide das vítimas e no qual os racistas, se não puderem ser eliminados, no mínimo, sintam-se constrangidos o suficiente para guardar dentro de si o ódio e a ignorância que carregam no peito.