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Alicia Klein

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Joelho do Rodrigo Caio, Podrinho e nossa desumanidade

Jogadores do Flamengo visitam Rodrigo Caio no hospital - Reprodução/Instagram
Jogadores do Flamengo visitam Rodrigo Caio no hospital Imagem: Reprodução/Instagram
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Alicia Klein

Alicia Klein tem quase 20 anos de mercado esportivo em posições de liderança no Brasil e no exterior. Escreveu a biografia de Michael Schumacher, trabalhou na NFL, no universo olímpico e no da Copa do Mundo. Decidiu que é hora de falar sobre misoginia, racismo, trabalho infantil e tudo que o esporte aceita em nome dos resultados dentro e fora de campo.

13/05/2022 14h45

"2021 foi um ano muito difícil para mim, onde eu segurei ao máximo porque não queria ficar de fora. Levei meu corpo ao maior limite possível. Infelizmente, a gente paga esse preço em algum momento, e eu paguei esse preço. Em algum momento eu achei que era mais forte que a dor, e a gente não é mais forte que a dor... Lembro quando chegava em casa, depois de um jogo, destruído. No dia seguinte, quando acordava, colocava o pé no chão, sentia muita dor. Não podia abraçar meu filho, pegar ele no colo, sair com minha esposa, com a minha família. E essa não era uma vida que eu queria."

A declaração de Rodrigo Caio, ao final do seu jogo de retorno, depois de cinco meses fora de combate, emocionou-me. Aliás, cinco meses de muito combate, de muita luta para recuperar seu joelho, seu corpo, sua vida em família.

Lembro-me das fotos de seu joelho inchado circulando pelo zap, algumas com mensagens de zoeira, outras de pena, todas de espanto. Como esse cara vai voltar a chutar uma bola em alto nível? Bichado. Já era.

O zagueiro chegou a passar duas semanas internado em um hospital para tratar de uma infecção na região dos pontos de sua artroscopia, em janeiro. Os vídeos de sua recuperação, da fisioterapia, de como ficou sua coxa direita... Quem não ficou tocado está morto por dentro, sério.

Ainda me espanta essa capacidade de desumanizar atletas milionários. Pô, o cara ricão, famoso, no topo da pirâmide, vou falar o que eu quiser.

Aí eu penso no Pedrinho, contando sobre sua depressão, e o impacto que lesões e o apelido de Podrinho tiveram sobre ele.

"Para vocês entenderem o que fosse a depressão, tive cinco cirurgias no joelho. Uma delas me tirou provavelmente das Olimpíadas, de uma Copa do Mundo pela perspectiva e mudou completamente minha trajetória como atleta.

Se perguntarem: O que você prefere ter cinco lesões no joelho ou a depressão? Prefiro ter as lesões, porque a depressão quase tirou a minha vida."

Ele declarou isso em uma live, em abril de 2020, sob lágrimas. Assim como Rodrigo Caio, Pedrinho ignorou seus limites. "Quando acabava o primeiro tempo, meu dedo já estava latejando, e ele infiltrava de novo. Foi assim a minha carreira inteira. Machucava. Sabe por quê? Porque eu não tinha mais o direito de ter uma dor muscular a mais que fosse... Eu jogava em cima de dor, tinha lesão grave e ficava dois meses parado. Para algumas pessoas, somos super-heróis. Eu pensava que o cara ganha dinheiro, joga, tá tristinho? Tá com 'depressãozinha'?"

Nunca se esqueçam que todo jogador e jogadora, treinador e treinadora, as pessoas no mais alto nível, também são pai, mãe, filhos, pessoas. E, da mesma forma que tantas pessoas "comuns", abrem mão de muito para estar onde estão.

Como chorando disse Abel Ferreira, ao vencer seu primeiro título, a Libertadores de 2020: "Hoje sou melhor treinador, mas sou pior pai, filho, irmão, tio... Não imaginam a quantidade de vezes que me deitei à noite, na minha almofada, e chorei sozinho de saudade."

Claro que pode criticar, cornetar departamento médico, questionar condição física, desempenho etc. Faz parte do jogo também. Mas antes de zoar alguém que está, física e talvez emocionalmente, machucado, pense como você trataria um amigo, como gostaria de ser tratado em um momento de dificuldade.

Podemos tratar com gentileza mesmo os ziolionários. Os legais, claro.