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Alicia Klein

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Haaland no City e Santa Cruz largado: a realidade do futebol brasileiro

Haaland com o prêmio de melhor em campo em jogo contra o PSG em 2020 - Alex Grimm - UEFA/UEFA via Getty Images
Haaland com o prêmio de melhor em campo em jogo contra o PSG em 2020 Imagem: Alex Grimm - UEFA/UEFA via Getty Images
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Alicia Klein

Alicia Klein tem quase 20 anos de mercado esportivo em posições de liderança no Brasil e no exterior. Escreveu a biografia de Michael Schumacher, trabalhou na NFL, no universo olímpico e no da Copa do Mundo. Decidiu que é hora de falar sobre misoginia, racismo, trabalho infantil e tudo que o esporte aceita em nome dos resultados dentro e fora de campo.

10/05/2022 15h30

De acordo com um jornalista italiano, o Manchester City vai desembolsar o equivalente a R$ 325 milhões pelo atacante norueguês Erling Haaland, além de uma comissão. O salário do jogador estaria no "mesmo nível de De Bruyne", cerca de R$ 2 milhões por semana.

Dois milhões. Por semana.

Enquanto isso, no país do futebol, uma das economias mais ricas no mundo, tem time grande sem salário algum. Sem refeições adequadas, sem segurança, sem o básico.

A declaração de Leston Júnior, agora ex-treinador do Santa Cruz, deveria servir de alerta para o nosso verdadeiro tamanho.

"Que fique claro, repito, o que os senhores vão ouvir aqui é desabafo e reivindicação apenas de salário", Leston declarou, após a primeira vitória do clube na Série D, ao lado de todo o elenco, comissão técnica e o executivo Marcelo Segurado. Já são quatro meses de receber.

"Todo mundo aqui é pai de família e precisa chegar em casa pagar suas contas, porque isso aqui, por mais que muitos pensem que são máquinas, são seres humanos. Têm problemas como todo mundo tem, têm família como todo mundo tem. Jogam por sobrevivência, afinal, nós vivemos em um mundo capitalista.

"Então, o que nos motivou muito a isso aqui, além de todos esses problemas, é condição de trabalho, e eu não estou aqui dizendo que isso é responsabilidade de quem tá na presidência não, é porque o clube está largado mesmo... Estamos pedindo campo em condição de treinar, de um atleta se alimentar de forma devida... E obviamente salário. Se o segurança não recebe, o médico não recebe? 'Ah, esses caras não jogam não'. Eles são tão importantes em alguns casos até mais do que esses caras que estão aqui, porque eles dão condição a esses caras. É um manifesto nesse sentido."

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Leston Júnior (de azul) em entrevista coletiva ao lado dos jogadores do Santa Cruz
Imagem: Reprodução/Instagram

Três dias antes, na quinta-feira, o centro de treinamento do Santa fora invadido por torcedores, alguns armados, que teriam feito inclusive ameaças de morte.

Pense: você trabalharia sem saber se vai receber salário, sem acesso a uma alimentação decente e com sua integridade física sob risco?

A reação da direção do Santa Cruz? Leston Júnior e Marcelo Segurado foram demitidos menos de uma hora depois da declaração. E menos de uma hora depois disso, seus substitutos foram anunciados. Os jogadores ameaçam greve ou mesmo deixar o clube.

Como um dia disse o Grafite, quando defendia a equipe pernambucana: "Quando o Santa Cruz joga bem, ele perde. Quando ele joga mal, ele perde! E, quando ganha, ele perde também."

Perdemos todos. Porque a nossa realidade está muito mais próxima da do Santa do que do City. Mais próxima dos salários atrasados e CTs invadidos do que das discussões milionárias da Liga-que-não-sai.

Mais insano do que os R$ 2 milhões por semana de Haaland, é a pobre realidade do futebol brasileiro.