PUBLICIDADE
Topo

Alicia Klein

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

A seleção brasileira que me faz preferir a Copinha à Copa do Mundo

Seleção brasileira posa para foto antes de jogo das Eliminatórias da Copa do Mundo do Qatar - Lucas Figueiredo/CBF
Seleção brasileira posa para foto antes de jogo das Eliminatórias da Copa do Mundo do Qatar Imagem: Lucas Figueiredo/CBF
Conteúdo exclusivo para assinantes
Alicia Klein

Alicia Klein tem quase 20 anos de mercado esportivo em posições de liderança no Brasil e no exterior. Escreveu a biografia de Michael Schumacher, trabalhou na NFL, no universo olímpico e no da Copa do Mundo. Decidiu que é hora de falar sobre misoginia, racismo, trabalho infantil e tudo que o esporte aceita em nome dos resultados dentro e fora de campo.

14/01/2022 15h42

As notícias sobre a Seleção não param de chegar e eu não consigo me entusiasmar. Nem como jornalista, nem como torcedora.

Pergunto-me até se existe este ser: a torcedora ou torcedor da Seleção. Certamente existem a brasileira e o brasileiro que acompanham mais ou menos o futebol, que dedicam mais ou menos de seu tempo aos poucos jogos importantes da equipe, que têm mais ou menos disposição para pintar uma rua, o rosto ou o 7 durante a Copa do Mundo. São muitos.

Mas eles subsistem o ano todo, todos os anos? Se sim, onde vivem? Do que se alimentam?

Se são reais, os torcedores permanentes da Seleção, eles conseguem se entusiasmar com as convocações? Animam-se diante dos debates sobre a convocação de Philippe Coutinho, o sentido que possa fazer a de Daniel Alves? A importância de Neymar? Pensam: esses caras me representam?

A turma que me é mais familiar, permanente e certamente real é a de torcedoras e torcedores de clubes. Para quem, aliás, a Seleção tem sido mais um aborrecimento do que fonte de alegria. Quantos atleticanos, flamenguistas, palmeirenses torceram realmente pelo Brasil na Copa América, vendo suas agremiações sangrarem com os desfalques?

Desfalques que nem sequer eram titulares na maior parte do tempo. E precisando assistir a diversos titulares que nem chegaram a se estabelecer nestas terras antes de partir e que, portanto, carregam pouco vínculo conosco. Ou seja, os que estão em campo eu só conheço se acompanho os campeonatos europeus. E os que estão no banco fazem falta no futebol nacional.

Ninguém quer sofrer mais que o necessário, mas acho que o passeio do Brasil pelas Eliminatórias também não ajudou. Não houve um momento em que consideramos a possibilidade de ficar de fora da festa no Catar. Não teve emoção.

Passeio no sentido prático, claro. O futebol chatinho do time de Tite não contribuiu para a empolgação de ninguém. Deu um pouco a sensação de: o que estamos fazendo aqui? Não dá para acabar logo isso e voltarmos ao que realmente importa, os clubes?

Óbvio que tudo muda conforme a Copa se aproxima. Rostos verde-amarelo pululam, grandes patriotas erguem-se, o mundo passa a se resumir a um assunto - ou não, afinal 2022 é também ano de eleição.

Mas, agora, agorinha, em janeiro, eu arriscaria dizer que tem mais amante de futebol preocupado com a Copinha do que com a Copa do Mundo, lá no longínquo final de novembro, no distante Catar.

Não sei se é a desconexão com os jogadores que mal atuam por aqui, o futebolzinho sem personalidade, os terríveis exemplos vindos da CBF ou só a falta de presença da Seleção no nosso dia a dia, mas para mim é cada vez mais difícil sentir o coração bater mais forte ao pensar no Brasil em campo. Me julguem.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL