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Alicia Klein

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Djokovic, rei dos antivax, descobre que não está acima de nós

Novak Djokovic escorrega e cai na primeira rodada de Wimbledon 2021 - Reuters
Novak Djokovic escorrega e cai na primeira rodada de Wimbledon 2021 Imagem: Reuters
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Alicia Klein

Alicia Klein tem quase 20 anos de mercado esportivo em posições de liderança no Brasil e no exterior. Escreveu a biografia de Michael Schumacher, trabalhou na NFL, no universo olímpico e no da Copa do Mundo. Decidiu que é hora de falar sobre misoginia, racismo, trabalho infantil e tudo que o esporte aceita em nome dos resultados dentro e fora de campo.

06/01/2022 12h27

Não pude deixar de sentir enorme prazer com a notícia sobre a provável deportação de Novak Djokovic ontem. Sem apresentar um comprovante de vacinação, o notório atleta antivacina teve sua isenção especial cancelada e a entrada negada na Austrália. O maior do mundo está fora de um dos maiores torneios do mundo.

Ah, mas lá vai você começar o ano se rejubilando com a desgraça alheia. Não. Desgraça alheia seria deixar uma pessoa não vacinada flanar por uma nação em meio à milésima onda de um vírus que não desiste de nos atormentar. Desgraça alheia seria dobrar as regras apenas porque um fulano sabe manejar uma raquete melhor do que as outras fulanas e fulanos que visitam aquele país. Desgraça alheia seria beneficiar alguém que não está preocupado em beneficiar os outros.

Quem tem filho pequeno tem também muita intimidade com vacinas. E deveria aprender rapidamente que vacina não é escolha individual. Não é alopatia versus homeopatia, medicina ocidental versus oriental, ceticismo versus orações, usar ou não antibióticos. Cada um cuida - ou não - dos seus como bem entende e lida com as consequências dentro da sua casa. Vacina, ao contrário, é pacto social. Eu não vacinar o meu filho pode significar a morte do seu.

Por que então abrir mão do princípio básico da convivência em comunidade, o limite de um acaba onde começa o do outro, apenas para os privilegiados, os excepcionais? Por que Djokovic e companhia (só no futebol europeu há vários exemplos de quem se recusa a tomar a vacina contra a Covid-19) podem viver como bem entendem, independentemente do dano que possam causar?

Porque são ricos e famosos. E quase invariavelmente brancos. Porque a eles está reservado o privilégio da impunidade. Como Robinho pode ser condenado por estupro coletivo e continuar buscando clubes que o aceitem. Como Cuca pode continuar sendo louvado como excelente técnico e pessoa depois de condenado por violência sexual contra menor. Como Neymar pode ser acusado de violência contra mulheres e sonegação fiscal (um zilionário tomando dinheiro do povo), e seguir por aí, belo e faceiro, ganhando cada vez mais dinheiro e atenção.

Enquanto pessoas pobres, e quase invariavelmente negras, são trancafiadas por roubar comida para garantir a sobrevivência de seus filhos.

Então, quando eu vejo um cara que não precisará suar por nem mais um dia de sua vida para pagar um boleto, que tem o mundo a seus pés, retido em um centro de imigração, impedido de trabalhar porque se acha acima dos meros mortais, olha, eu comemoro mesmo.

É possível que o Australian Open perca mais do que Djoko. É possível que ele não sofra grandes consequências para além deste percalço. É possível que nada mude e a impunidade siga por aí, bela e faceira, como há milênios.

Ao menos por um breve instante, porém, podemos acreditar que gente famosa também precisa responder por seus atos, que não estão acima do bem e do mal, muito menos acima de nós. Estão deixando a gente sonhar...