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Alicia Klein

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Setor feminino do Botafogo: segregar mulheres não é solução para o assédio

Torcida do Botafogo em jogo no Nilton Santos - Vitor Silva/Botafogo.
Torcida do Botafogo em jogo no Nilton Santos Imagem: Vitor Silva/Botafogo.
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Alicia Klein

Alicia Klein tem quase 20 anos de mercado esportivo em posições de liderança no Brasil e no exterior. Escreveu a biografia de Michael Schumacher, trabalhou na NFL, no universo olímpico e no da Copa do Mundo. Decidiu que é hora de falar sobre misoginia, racismo, trabalho infantil e tudo que o esporte aceita em nome dos resultados dentro e fora de campo.

03/11/2021 15h52

O Botafogo planeja criar, em 2022, um setor exclusivo para mulheres em seu estádio. Meu pai me encaminhou a notícia como sugestão de tópico para a coluna. Eu queria escrever sobre outra coisa, mas não consegui. Porque acho a decisão uma merda, com todo o respeito. Bem-intencionada, sem dúvida. Inócua, com quase certeza.

Como muitas das ações voltadas à proteção da mulher, ela acaba por nos fornecer um colete à prova de balas, em vez de desarmar quem nos agride. Setor de presas à esquerda, setor de predadores à direita.

Fica aqui nesse cercadinho, isolada, porque aí ninguém vai mexer com você. Os assediadores continuarão frequentando o Nilton Santos, passando por você na chegada e na saída, no ônibus, na fila da cerveja lá fora, nos cantos escuros. Mas, ó, tranquila porque durante duas horas ninguém vai te importunar. Não resolve.

Eu cresci em arquibancada nos anos 1990. Dava um jeito de usar o banheiro do McDonald's ao lado do estádio, para mitigar o risco de precisar me aventurar lá dentro. Combinava um ponto de encontro com os amigos (um amigo, na verdade) o mais longe possível, para não chegar aos portões sozinha. Não usava short nem regata. Vivia de fone de ouvido para abafar os comentários indecentes. Não olhava nos olhos de ninguém até encontrar um lugar "seguro" para sentar e xingar todo mundo.

Em nenhum momento, nem nos piores, ouvindo impropérios aos 12 anos de idade, sendo puxada pelo braço aos 15, insultada aos 20, ou já mais segura aos 30, nunca, nunquinha eu pensei: ah, como seria bom poder torcer sozinha, só com mulheres. Uma coisa é a vontade de ver mais torcedoras no estádio - o número baixo me incomoda profundamente até hoje. Outra é querer torcer em paz. Seja onde for. Cercada por homens, mulheres, pessoas LGBTQIA+, negras, brancas, crianças, velhos, adultos. É encontrar respeito, em qualquer lugar.

Ou só devo me sentir protegida se não houver homens ao meu redor? O que estamos ensinando à geração do meu filho dizendo: no futebol, mulheres como a mamãe precisam ser separadas do resto das pessoas para não correr perigo. Poxa, então esquece o jogo e vamos ao cinema. Ao parque. Sentar num boteco. Qualquer lugar em que possamos estar juntos, sem predadores, sem segregação.

A iniciativa do Botafogo é positiva no sentido de jogar luz sobre um assunto que, de tão batido, quase passa batido: o inferno a que tantas torcedoras precisam se sujeitar a fim de apoiar seu time, como se fizesse parte da experiência.

A forma de resolver o problema, porém, também é velha - e ineficaz. Despeja nas vítimas o ônus de se protegerem. O custo, neste caso, é o isolamento. Com a minúscula recompensa de ter um pouco de sossego por uns poucos minutos. Em vez de investir pesado em acolhimento, educação, punição e tantas outras formas de combate ao assédio que visam tornar o mundo - não um punhado de cadeiras - um lugar seguro. Há muitas especialistas neste assunto.

Uma das figurinhas de zap que mais tenho usado desde 2020 traz o desenho de uma menina "sorrindo", com os dizeres: eu só queria um minuto de paz neste c**** deste país.

Pois é só isso que eu queria mesmo: um pouco de paz para existir onde eu quiser, cercada por gente civilizada, que não me assedia porque sabe que não pode (e que dá cadeia). Ponto. Não porque estou atrás de um muro, num setor dedicado, ocupando um vagão separado ou vestindo um colete à prova de cretinos.

Não é pedir muito.

Atualização

A assessoria do Botafogo me procurou para falar sobre o caso:

"Não se trata de uma iniciativa do Botafogo. Foi uma solicitação da Secretaria de Direitos Humanos do Governo do Estado, e o clube está estudando e conversando sobre atender a essa solicitação. O Botafogo e a Secretaria do Estado, por meio do núcleo chamado "Empoderadas", vai abrir debate com a própria torcida feminina, para que todos possam opinar e seja uma construção conjunta com toda a sociedade civil. Não será tomada nenhuma decisão sem antes ouvir o público feminino botafoguense e os envolvidos neste tema em geral."

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL