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Alicia Klein

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Alicia Klein - Homofobia no vôlei: Superman bi e o vilão

Maurício Souza - Reprodução/Instagram
Maurício Souza Imagem: Reprodução/Instagram
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Alicia Klein

Alicia Klein tem quase 20 anos de mercado esportivo em posições de liderança no Brasil e no exterior. Escreveu a biografia de Michael Schumacher, trabalhou na NFL, no universo olímpico e no da Copa do Mundo. Decidiu que é hora de falar sobre misoginia, racismo, trabalho infantil e tudo que o esporte aceita em nome dos resultados dentro e fora de campo.

26/10/2021 19h40

O Brasil segue mesmo sendo aquele lugar em que boas notícias dificilmente se confirmam à luz do dia. Leio a chamada do UOL: "Minas decide afastar Maurício após homofobia, e jogadores ameaçam ir embora". Penso: será que os atletas estão ameaçando sair caso o homofóbico permaneça? Há esperança?

Claro que não. A interpretação de texto esperançosa obviamente se provou errada: os colegas exigem a permanência do homofóbico, em nome da sua "liberdade de expressão".

Para quem não acompanhou o caso, o jogador Maurício Souza fez uma postagem cretina em seu Instagram, no Dia das Crianças, criticando a bissexualidade da atual versão do Superman, da DC Comics. Sim, é essa mesma a preocupação do vilão da nossa história.

Torcedores e patrocinadores da equipe exigiram uma reação severa do Minas Tênis Clube, seu empregador. O que, pasmem, aconteceu. O atleta está afastado enquanto analisam as questões jurídicas de sua demissão. Até aí, boa notícia.

Entram em cena seus companheiros. Para nos lembrar de que o fundo do poço do Brasil de 2021 nunca chega.

Tudo isso me lembrou o texto da escritora Marilene Felinto, sobre a saída de Sueli Caneiro do conselho editorial da Folha, menos de um mês depois de se tornar a primeira mulher preta a integrá-lo. A ativista, expoente do movimento negro brasileiro, retirou-se em protesto a um artigo profundamente racista publicado pelo jornal.

"É preciso aprender com esse episódio: primeiro, que o posicionamento político contra o racismo deve ser radical, como sei que é o de Sueli Carneiro, e como já denunciava Malcolm X no século passado; segundo, que acatar a diversidade, ou combater a desigualdade social resultante da discriminação racial, não pode ser uma conduta cosmética —precisa ser profunda e coerente, se quer alterar a estrutura do sistema infame."

A conduta do esporte contra homofóbicos, racistas, machistas, assediadores, criminosos de toda a sorte precisa ser radical. Não pode haver espaço para quem usa de suas plataformas - e das de seu esporte, clube, federação, torcida - para disseminar preconceitos, fomentar o ódio e perpetuar a infâmia do atual sistema.

Não passarão. Espero, sinceramente, que não passem.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL