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Alicia Klein

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

CBF é só a ponta do iceberg: vamos falar de assédio no esporte

Rogério Caboclo, no discurso após ser eleito presidente da CBF, em 2018 - Lucas Figueiredo/CBF
Rogério Caboclo, no discurso após ser eleito presidente da CBF, em 2018 Imagem: Lucas Figueiredo/CBF
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Alicia Klein

Alicia Klein tem quase 20 anos de mercado esportivo em posições de liderança no Brasil e no exterior. Escreveu a biografia de Michael Schumacher, trabalhou na NFL, no universo olímpico e no da Copa do Mundo. Decidiu que é hora de falar sobre misoginia, racismo, trabalho infantil e tudo que o esporte aceita em nome dos resultados dentro e fora de campo.

17/09/2021 13h23

Estou cansada de ouvir relatos sobre assédio e violência contra a mulher no esporte, especialmente no futebol. Exausta. Incrédula, quase. Revoltada, mesmo. Desalentada ao ver que, depois de mais de 20 anos neste meio, o cenário pouco mudou. E não é pelas denúncias na CBF, que chocam mas não surpreendem ninguém.

Esta semana, uma amiga com vasta experiência em torneios do mais alto nível, desabafou: finalmente, eles vão me vencer pelo cansaço. Por diversas vezes, ela já pensou em largar o futebol, o trabalho que ama, por não aguentar mais ouvir merdas nas partidas. Agora, a hora dela pode ter chegado. E eu, ingênua, que pensava: ô, assediador, pode esperar, a sua hora vai chegar! Não, a hora que sempre chega parece ser a nossa.

A da mulher que insiste em ocupar um espaço que insiste em tornar sua presença insuportável. Que opera para diminuí-la, até expulsá-la. Que normaliza comportamentos que já estão, inclusive, criminalizados. Que chama de mimimi um cenário de violência emocional garantida e violência física possível.

Infelizmente, já perdi as contas de quantas vezes eu sofri assédio sexual. E sou uma mulher privilegiada, branca, hétero. Desde comentários infelizes, passando por propostas indecentes, chegando no episódio que relatei na coluna de estreia, aqui no UOL. Um jogador da Seleção me jogou na parede e tentou me beijar à força. Eu larguei tudo, denunciei, esbravejei e coloquei a boca no trombone? Não. Enterrei a história e segui trabalhando porque, né, futebol é tão legal.

Mas não é. O futebol tolera as mulheres, sujeitando-as às suas regras. Regras que, como não canso de repetir, são as de um universo paralelo, que não acredita precisar respeitar as da sociedade que habita. Pandemia? Mas o que são 10 mil pessoas no estádio. Racismo? Ah, mas nem chamou de macaco. Assédio? Mulher sabe bem onde está pisando, futebol é assim mesmo, não reclama.

A minha experiência tem mostrado que, para muita gente, o tamanho do buraco só fica mais claro por meio de casos reais. Imaginar a sua mulher, irmã, filha, amiga indo para o trabalho todos os dias sabendo que terá de lidar com gente nojenta, fugindo de colegas, evitando estar sozinha com o chefe, se afastando de pessoas no elevador, pensando duas vezes sobre o que vestir, chorando de raiva no banheiro etc. etc. etc. No limite, sendo atacada. E vendo os colegas, a empresa, a geral botando panos quentes. Gerenciando a situação, em vez de denunciar, punir, extirpar a fonte do problema. Como se o problema fosse quem não tolera o intolerável.

Pois eu não tolero. Não aguento mais, sério. Se você, leitora ou leitor, tem histórias que possam me ajudar a chocar quem ainda não está chocado e chamar atenção à luta silenciosa que travamos todos os dias, me chamem. Quero usar esta plataforma, que tantas mulheres não têm, para tornar público o que nunca deveria acontecer. Para que deixe de acontecer mais rápido. Me manda mensagem, nem que seja só para desabafar. Estou aqui. Pê da vida. De saco cheio. Mas ainda com alguma disposição para brigar.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL