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Alicia Klein

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Alicia Klein - Caso Celsinho: Brusque FC dá aula de racismo no futebol

Celsinho, meia do Londrina - Reprodução/Instagram
Celsinho, meia do Londrina Imagem: Reprodução/Instagram
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Alicia Klein

Alicia Klein tem quase 20 anos de mercado esportivo em posições de liderança no Brasil e no exterior. Escreveu a biografia de Michael Schumacher, trabalhou na NFL, no universo olímpico e no da Copa do Mundo. Decidiu que é hora de falar sobre misoginia, racismo, trabalho infantil e tudo que o esporte aceita em nome dos resultados dentro e fora de campo.

30/08/2021 13h00

Mais um caso de racismo com requintes de crueldade no Brasil. Crueldade institucional, desta vez. Não bastassem os jornalistas que se sentiram à vontade o suficiente para fazer, no ar, comentários racistas sobre o cabelo do jogador Celsinho, do Londrina, ele agora foi vítima também dentro do estádio. E, novamente, vítima de uma carta imbecil, cretina, quiçá criminosa do Brusque, time adversário pela Série B do Brasileiro.

Se você não sabe o que aconteceu e quer conhecer os detalhes sórdidos, há muitas matérias disponíveis. Eu, por minha vez, evitarei reproduzir as ofensas. Não basta aviso de gatilho. Chega uma hora em que essas coisas só machucam e não agregam. É importante estarmos informadas e informados para seguir na luta, mas confesso que ouvir colegas repetindo ad nauseam as agressões sofridas pelo atleta me pareceu quase insensível.

Já a carta do Brusque eu faço questão de trazer à coluna, pois entendo que ela oferece à CBF a oportunidade de dar ao clube uma punição exemplar. Uma agremiação que não só abriga criminosos, mas também tem o despudor de abertamente acusar uma vítima, de tentar virar um jogo em que historicamente só há um lado perdedor.

[...] O Brusque F.C., sua torcida, diretoria, comissão técnica e patrocinadores sempre foram, ao longo da sua história, absolutamente respeitosos com relação a todos os princípios que regem as relações desportivas e humanas. Jamais permitiríamos qualquer atitude de conotação racista em nosso Clube, que condena veementemente qualquer pensamento ou prática nesse sentido. O atleta, por sua vez, é conhecido por se envolver neste tipo de episódio. Esta é pelo menos a 3ª vez, somente este ano, que alega ter sido alvo de racismo, caracterizando verdadeira "perseguição" ao mesmo. [...] O Brusque F.C. reitera que nenhum de seus diretores praticou qualquer ato de racismo e tomará todas as medidas cabíveis para a responsabilização do atleta pela falsa imputação de um crime. Racismo é algo grave e não pode ser tratado como um artificio esportivo, nem, tampouco, com oportunismo".

Que tipo de gente escreve numa mesma nota que tem absoluto respeito pelos "princípios que regem as relações desportivas e humanas" (aliás, que frase, hein) e, no mesmo parágrafo, acusa uma vítima de racismo de "se envolver neste tipo de episódio"? Ele escolheu ser ofendido repetidamente? Ou achou que seria agradável inventar palavras tão dolorosas e passar a semana ouvindo seu nome associado a coisas indizíveis? Que tipo de gente acusa uma pessoa negra de usar o racismo como artifício esportivo? De se aproveitar do que há de mais cruel para o que exatamente? Qual o benefício? E como o clube sabe que o ato não foi cometido? Quem decide quem diz a verdade? Investigação rápida e conclusiva esta.

Só uma sociedade estruturalmente racista acredita que pessoas negras se aproveitam do racismo. Só uma sociedade estruturalmente machista acredita que mulheres inventam casos de assédio. O oprimido que denuncia quase invariavelmente sofre mais do que o opressor. Não há garantia de represália. E quase sempre há garantia de revitimização.

É preciso coragem para denunciar. Em um país que há séculos mata negros com liberdade institucional, é preciso coragem até para seguir vivendo. Celsinho deve ser louvado pela sua força, protegido pela lei e recompensado com a punição de seus agressores. É o mínimo dos mínimos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL