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Alicia Klein

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Atletas olímpicos não evaporam entre Olimpíadas: como você pode ajudar

08.ago.2021 - Beatriz Ferreira em disputa da medalha de ouro no boxe - Ou Dongqu/Xinhua
08.ago.2021 - Beatriz Ferreira em disputa da medalha de ouro no boxe
Imagem: Ou Dongqu/Xinhua
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Alicia Klein

Alicia Klein tem quase 20 anos de mercado esportivo em posições de liderança no Brasil e no exterior. Escreveu a biografia de Michael Schumacher, trabalhou na NFL, no universo olímpico e no da Copa do Mundo. Decidiu que é hora de falar sobre misoginia, racismo, trabalho infantil e tudo que o esporte aceita em nome dos resultados dentro e fora de campo.

08/08/2021 15h53

Quando as luzes do Estádio Olímpico de Tóquio se apagaram, 17 dias atrás, eu estava determinada a não me deixar abalroar pela obsessão olímpica. Não dessa vez. No meio da pandemia, seus loucos. Aqui não, bebê!

Como se viu, falhei miseravelmente e passei pouco mais de duas semanas inebriada, consumindo infindáveis horas de cobertura, caindo como uma pata na armadilha emocional das histórias de superação, emocionando-me com cada medalha, descobrindo novas modalidades (oi, kata!), familiarizando-me com outras (skate, seu lindo).

Optando, (in)conscientemente, por não comentar na coluna o importante fato de que o Japão vive, em meio ao frenesi olímpico, seu pior momento da pandemia. Uma taxa de contágio maior até do que a nossa, registrando seus próprios tristes recordes.

Para completar o frenesi brasileiro, as pratas de Bia Ferreira e do vôlei feminino coroaram nossa melhor campanha em Olimpíadas. (O beijo da Roberta Ratzke na medalha é a coisa mais romântica que você verá hoje.)

Vinte e uma medalhas que parecem pouco perto do nosso potencial, do nosso tamanho, mas que são muito perto do que (não) se investe. A internet foi tomada pelo levantamento sobre a situação financeira de quem nos representa: dos 309 atletas em Tóquio, 42% não tem qualquer patrocínio, 13% fizeram vaquinha para chegar lá, 10% não vivem do esporte, cinco deles são motoristas de aplicativo. Essa é a realidade dos melhores atletas do país. Imagina o resto.

Em uma carta intitulada "Aos atletas do Time Brasil e ao povo brasileiro", o artilheiro Richarlison marcou seu maior gol até aqui: "Passou da hora de nosso país entender que esporte não é só um cara chutando no gol ou enterrando a bola numa cesta: é bem-estar, saúde, disciplina e segurança. Nós levamos o nome do nosso país ao mais alto nível com muito orgulho, geramos exposição e rendimentos, além de representar nossa gente e nossa bandeira. Então, nada mais justo do que haver um retorno mais significativo." Leiam-na toda, por favor.

Como não poderia deixar de ser em um dos países mais desiguais do mundo, quem mais trabalha não é quem leva para casa a maior fatia da torta. Enquanto 90% dos jogadores de futebol no Brasil ganham no máximo um salário mínimo, o salário do presidente afastado da CBF, Rogério Caboclo, bate astronômicos 340 mil reais mensais. E estou falando dos jogadores de futebol, no país do futebol. Imagina o resto.

Política pública é uma coisa que a gente pode mudar por meio de voto, protesto, petição etc. Tudo coisa lenta. Necessária, porém lenta. O que, então, podemos fazer de imediato para tentar melhorar as condições do nosso esporte, para que a glorificação do perrengue seja menos frequente em 2024?

Curtidas, retuítes, postagens nos stories, publicações no Facebook, vídeos no Tik Tok, quaisquer ações capazes de aumentar a audiência dos nossos atletas ou mesmo das confederações. Já há um movimento nesse sentido, impulsionado por algumas estrelas e patrocinadores.

Esses Jogos nos mostraram que as plataformas oficiais se tornaram secundárias. O perfil do Comitê Olímpico Internacional no Instagram tem 5,1 milhões de seguidores. Simone Biles, 6,8 milhões. O Time Brasil tem 957 mil. Rayssa, 6,7 milhões. A Confederação Brasileira de Vôlei tem 761 mil. Douglas Souza, 3,2 milhões.

Os atletas sempre tiveram voz; agora, elas e eles têm onde expressá-la livremente (felizmente). E isso significa que você, eu, sua mãe, seus primos, sua avó podemos ajudá-los com atenção. Porque audiência vale dinheiro. Não tem mágica. Douglas Souza, por exemplo, fechou contrato com uma patrocinadora do COB já em Tóquio, quando explodiu nas redes. Vários colegas também mudaram de patamar nas últimas semanas - porque não basta ser foda no campo de jogo, tem de ser blogueirinho também.

Se você se importa e saiu das Olimpíadas com a sensação restaurada de orgulho, faça o que está ao seu alcance. Mande mensagem para as emissoras pedindo que transmitam as modalidades que você curte, assista aos campeonatos que já estão na programação deste ano (são vários, incluindo skate, atletismo, ginástica).

Se ninguém vê, os patrocinadores não compram cotas, as emissoras deixam de adquirir os direitos, as Federações Internacionais empobrecem e, por consequência, os atletas. Temos papel fundamental para tornar o ciclo virtuoso. Não espere que o governo ou mesmo a iniciativa privada resolvam o que até hoje é tão capenga.

Infelizmente, não adianta reclamar e só voltar a dar bola para a galera às vésperas dos Jogos de Paris. Eu queria poder dizer: cobrem do Estado, esta é uma responsabilidade do Estado. Mas o que esperar de um Estado que boicota a saúde, desmonta a cultura, esquece o esporte e queima a arte?

Aproveite agora que você está conectada ou conectado. Dê um pulo na sua rede social favorita e curta cinco, dez, vinte atletas. Ajude quem dedicou a vida para nos dar algumas horas de alegrias. E obrigada pela companhia olímpica. Já estou com saudades.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL