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Alicia Klein

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Ana Marcela Cunha: baiana, lésbica e melhor do mundo

Ana Marcela Cunha feliz após o ouro na maratona aquática. Jogos Olimpicos, Tokyo 2020. 04 de agosto de 2021, Toquio, Japao. Foto: Satiro Sodré/SSPress/CBDA - Satiro Sodré/SSPress/CBDA
Ana Marcela Cunha feliz após o ouro na maratona aquática. Jogos Olimpicos, Tokyo 2020. 04 de agosto de 2021, Toquio, Japao. Foto: Satiro Sodré/SSPress/CBDA Imagem: Satiro Sodré/SSPress/CBDA
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Alicia Klein

Alicia Klein tem quase 20 anos de mercado esportivo em posições de liderança no Brasil e no exterior. Escreveu a biografia de Michael Schumacher, trabalhou na NFL, no universo olímpico e no da Copa do Mundo. Decidiu que é hora de falar sobre misoginia, racismo, trabalho infantil e tudo que o esporte aceita em nome dos resultados dentro e fora de campo.

04/08/2021 16h08

Em 2018, os nordestinos puderam dizer que quase salvaram o Brasil. Se a região fosse um país, não haveria este presidente. Talvez não houvesse mais de meio milhão de mortos na pandemia.

Há muitas maravilhas que vêm do mundo que é o Nordeste (incluindo a minha família) - e os Jogos Olímpicos de Tóquio são apenas mais uma prova.

Ítalo Ferreira (ouro no surfe), Rayssa Leal (prata no skate street), Bia Ferreira (mínimo bronze, candidata ao ouro no boxe) e, agora, a rainha das águas abertas, Ana Marcela Cunha.

Campeã olímpica, multicampeã mundial, campeã pan-americana, melhor atleta da modalidade, baiana, ativista LGBTQIA+ e militar. Difícil resumir Ana Marcela (ou qualquer pessoa) em poucas palavras, mas sinto que estas já dizem bastante.

Escrevi ontem sobre a interação entre esquerda e Forças Armadas na sobrevivência do alto rendimento no Brasil. À noite, talvez o maior exemplo até aqui de como não podemos colocar pessoas em caixinhas: continência no pódio (porque barriga vazia não nada 10km para o ouro olímpico, né) e beijo para a namorada na entrevista pós premiação.

Aliás, os pais dela torcendo na reta final da prova é a melhor coisa que você verá hoje.

Difícil encontrar melhor exemplo de atleta para quem faltava apenas o Olimpo. Aos 16 anos, ela havia chegado em quinto em Pequim e, no Rio, alcançado apenas um decepcionante décimo lugar.

Mas era só isso mesmo que faltava. Sua coleção já ostentava onze medalhas em Campeonatos Mundiais (cinco de ouro) e seis títulos de melhor maratonista aquática do mundo. O fôlego com que ela terminou a prova na manhã japonesa - e à noite seguiu para torcer pelo vôlei feminino - prova que ali nunca faltou gás.

Joanna Maranhão (outro presente do Nordeste) conta que, ao não se classificar para Londres 2012, Ana Marcela voltou e dias depois se sagrou campeã da maratona de 25km. Vinte e cinco quilômetros. Tipo de prova em que todas e todos deveriam ganhar medalha, sério. Apenas por sobreviver até o final. A brasileira venceu o mundial dessa distância nada menos que quatro vezes.

Não sei o efeito que causa em vocês, mas me dá gigantesca alegria ver uma brasileira poder bater no peito e dizer: sou a melhor do mundo no que faço. Inconteste. Exemplo para uma nação carente de ídolas e ídolos. E depois mandar um beijo para a namorada. Esse é o Brasil que eu quero.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL