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Alicia Klein

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Negra e periférica: que Rebeca seja regra em meio a histórias de exceção

Rebeca Andrade conquista a medalha de prata na ginástica artística nas Olimpíadas de Tóquio - Jonne Roriz/COB
Rebeca Andrade conquista a medalha de prata na ginástica artística nas Olimpíadas de Tóquio Imagem: Jonne Roriz/COB
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Alicia Klein

Alicia Klein tem quase 20 anos de mercado esportivo em posições de liderança no Brasil e no exterior. Escreveu a biografia de Michael Schumacher, trabalhou na NFL, no universo olímpico e no da Copa do Mundo. Decidiu que é hora de falar sobre misoginia, racismo, trabalho infantil e tudo que o esporte aceita em nome dos resultados dentro e fora de campo.

29/07/2021 17h31

"É um peito negro que carrega a primeira medalha da ginástica olímpica brasileira [feminina]. É a favela dando baile no mundo. É a Rebeca Andrade, menina preta, de origem humilde, criada por mãe sozinha, guerreira, outra brasileira como tantas de nós, é um tapa bem dado na cara do racismo."

Se me permitem humildemente complementar o tuíte da deusa Elza Soares, o vice-campeonato olímpico de Rebeca é também um enorme lembrete do racismo e de seus custos.

O custo de ser preta, pobre e periférica no Brasil. De ser filha de mãe solo, empregada doméstica, com sete filhos para criar. De, pequenininha, ter de caminhar duas horas com o irmão até chegar aos treinos por faltar dinheiro para a condução. De precisar sair de casa aos 9 anos a fim de perseguir seu sonho.

O sonho de vencer em uma modalidade com poucas portas abertas para meninas como ela. "Durante muito tempo, as pessoas disseram que as pessoas negras não poderiam fazer alguns esportes. E a gente vê hoje, a primeira medalha é de uma menina negra. Tem uma representatividade muito grande atrás de tudo isso", comentou uma emocionadíssima Daiane dos Santos.

E, quando Daiane fala em representatividade, ela fala sobre si. Sobre as portas que ela derrubou para que Rebeca e tantas outras pudessem acreditar. Rebeca é legado de Daiane, como Naomi Osaka é legado de Serena Williams.

Rebeca é fruto de seu próprio talento e dedicação, claro. Mas é fundamental olharmos para o que e quem tornaram Rebeca possível - e o que quase impossibilitou que ela brilhasse.

Brilhasse, aliás, ao som de Baile da Favela, levando para o mundo a música que parte da sociedade insiste em marginalizar, mas que tanto representa o nosso país e a nossa cultura. Rebeca fez questão de nos lembrar de que devemos ter orgulho do nosso funk. Como escreveu Francisco Bosco, sobre a apresentação de Rebeca e sua escolha de trilha sonora: "Quando está no seu melhor, o Brasil é foda. É uma glória civilizatória".

Os Jogos Olímpicos carregam consigo a tentação da glorificação: da dor, do sacrifício, da superação de limites. O perigo é confundirmos esforço com sofrimento, persistência com suplício. E não falo das três cirurgias de joelho que quase tiraram Rebeca do esporte. Lesões são parte intrínseca da vida do atleta. Pobreza não deveria ser.

Nenhuma atleta - nenhuma pessoa - deve passar necessidade. Rebeca e sua família não deveriam ter passado pelo que passaram, abrindo mão de tanto para dar alguma chance à menina prodígio.

Ao mesmo tempo em que nos cabe aplaudir de pé sua resiliência, cabe-nos também lutar para que ela deixe de ser a regra para tantas brasileiras e brasileiros. Para que Rebeca deixe de ser a exceção. Para que nenhuma menina negra precise abrir mão de um sonho ou duvidar do lugar em que pode chegar.

Nunca saberemos se Rebeca fez história hoje por causa ou apesar das dificuldades que enfrentou. Só sei que, hoje, meu peito se enche de orgulho, alegria e esperança de que mais Rebecas possam brilhar, com menos pobreza e mais leveza.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL